terça-feira, 3 de maio de 2016 0 comments

O príncipe desmascarado

Bela-recatada-e-do-lar, Cinderela recebe de sua fada madrinha um vestido de tafetá azul, sapatinhos de cristal, carruagem. Com todas essas máscaras, encontra o príncipe encantado e são felizes para sempre... Aplausos! Aplausos! Suspiros! 

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Adını Feriha Koydum (aka, El secreto de Feriha) reconta a história de Cinderela, situando-a em Istambul de hoje. O príncipe é Emir, herdeiro de discotecas da moda; e Cinderela é Feriha, "la hija del concierge" (a filha do porteiro). As semelhanças acabam por aí. Em uma sociedade em que todos têm suas máscaras, la hija del concierge é condenada exatamente porque, como uma adolescente sonhadora, ousou se passar por uma menina rica.

O conto de fadas se desfaz; a fada se torna bruxa; o príncipe, coronel. E la hija del concierge passa de niña à mulher. A história que se desenvolvia como uma espécie de Barrados no Baile turca, transforma-se rapidamente em um retrato frio de uma sociedade machista. O trecho abaixo apresenta uma pequena amostra do príncipe real, sem suas máscaras. Não é preciso legendas, nem contexto para enxergar a violência física e moral a que Feriha é submetida (em espanhol, aqui)



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Da onde vem as curtidas do Bolsonaro...

Um teste, um simples teste de internet: “Clique aqui para ver se seus amigos curtem Bolsonaro!” Quem resiste, não é? Claro que tem sempre um colega de colégio daqueles que você não vê há alguns anos, morador da Reaçolândia. Mas daí vem o choque – esperado, é verdade, mas choque: uma grande amiga da mamãe e minha amiga também.

Ah! Por favor, deleta sem pestanejar!!!

Mas daí me lembro que a Amiga mora no bairro que se encontra no final da rua da minha casa. Quando nasci, chamávamos aquele lugar de “favela” e não passávamos por lá de jeito nenhum. Na minha infância, a turma do bairro e a turma da favela se uniram e conseguiram eleger um vereador do PT. Essa união jamais teria ocorrido não fosse a igreja católica do bairro – seria maldade não mencionar. Comunidade e vereador trabalharam duro, conseguiram levar água, luz, caminhão de lixo, urbanizar a favela. Os problemas não desapareceram (claro que não!), mas agora há mais dignidade para enfrentá-los.

E a Amiga enfrenta... Ah! Enfrenta muito mais do que eu! Um dia o prefeito visitaria a escola do bairro. Antes da visita, funcionários da prefeitura limparam a rua, pintaram o meio fio. E a Amiga foi conversar com os funcionários. Indignada perguntava: “Por que vocês nunca limpam a rua, nunca pintam nada e agora vem fazer isso? O prefeito tem de ver a cidade como é de verdade, como ele deixa para nós moradores.”

Em outro episódio, movimentou a escola toda para pedir sua reforma. O prédio estava caindo aos pedaços com goteiras para todos e lados. Como membro atuante a associação de pais, conseguiu chamar a atenção dos governantes (do PT, diga-se de passagem) e já estão construindo uma escola nova. Fizeram bobagem nessa construção – devo concordar com a Amiga – tiraram um jardim gigante com árvores enormes para construir uma quadra esportiva (detalhe há uma quadra na pracinha em frente à escola, e ninguém usa).


E por que a Amiga “curte Bolsonaro”? Não perguntei. Tenho certeza de que não tem nada a ver com racismo ou apologia à tortura (provavelmente nem sabe de tudo isso). Em uma das nossas últimas conversas, ela me contou do material didático preparado para discutir questões de sexualidade. Não conheço o material, não posso julgá-lo, mas contei-lhe sobre como é guerreira e estudiosa, minha aluna trans. Ela concordou com o respeito aos trans, contou sobre os colegas da filha na turma de Jazz (de graça, pela prefeitura). Mas simplesmente não tolerou o material. 


Disclaimer:  é sempre bom tentar entender
porque o oprimido segue o seu opressor.



20 de abril de 2016.
 
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