Os habitantes de Thurdorf no norte da Suiça e Nova Vida no Rio Negro (norte do Brasil) com certeza nunca ouviram falar um dos outros. Os suiços têm uma noção tão vaga de Amazônia, quanto os barés têm uma noção vaga de Europa. Exceto, talvez, pelos jovens que sonham em conhecer o mundo oposto.
Oposto? Em uma viagem curtinha, descobri mais semelhanças do que poderia supor a princípio.
A escola é o ponto de maior semelhança. Os professores de Thurdorf e os de Nova Vida têm como desafio ensinar crianças de várias idades na mesma sala - o chamado 'ensino multiseriado'. Em aldeias, o número de alunos é muito pequeno para que os governos suiço e brasileiro disponibilizem um professor para cada série - a solução nos dois países foi juntar em uma mesma sala crianças de séries diferentes. Para os governos é uma economia e tanto; para os professores, um desafio de criatividade e competência.
Os mesmos professores também têm de lidar com o bilinguismo. Na Suiça, as crianças aprendem em casa um dos dialetos de "suiço alemão", que varia de "cantão" (ou estado) para "cantão". Não há, no entanto, material didático para ensinar em "suiço alemão". Além disso, todo suiço deve aprender também o "alemão padrão". Em Nova Vida, como em todas as aldeias indígenas, o desafio é alfabetizar na língua materna (apesar da ausência de material didático) e ao mesmo tempo introduzir o Português (para o qual há material didático, mas que trata de uma realidade completamente alheia ao universo indígena).
Para lidar com o mundo em que vivem, os professores de Thurdorf e de Nova Vida incentivam atividades na floresta. Sim, em Thurdorf há ainda um pedaço da floresta negra. Os alunos devem conhecer os tipos de plantas, os instrumentos utilizados no trabalho agrícola tradicional, etc. Em Nova Vida, esse tipo de ensino está começando, chama-se de "escola indígena diferenciada". Os professores incentivam a pesquisa com os idosos sobre os tipos e usos das plantas da região, as atividades artesanais tradicionais, etc. Nas duas "aldeias", os professores estão aprendendo a ensinar para preparar o cidadão para viver bem na comunidade em que vivem - e só depois, consciente de sua identidade linguistico-cultural, conhecer outros mundos.
Alunos da comunidade de Nova Vida, preparando festa.
Thurdorf vista de uma torre no meio da floresta negra.