Eu sou uma mistura confusa das várias narrativas que se introjetaram em minha alma por meio de leituras, de caminhar pelo mundo com o ouvido atento para desabafos de tantas mulheres guerreiras que confiaram sua história a mim; e das narrativas que eu mesma escrevi em minhas andanças pelas Américas e pela Europa.
Nos dois primeiros anos na Holanda, estive muito sozinha. Nos primeiros meses, havia ainda pesquisadores de pós-doutoramento e de doutoramento, mas no segundo ano, não havia mais ninguém. A tese era tudo o que importava.
O escritório, no décimo segundo andar, tornou-se uma espécie de Torre de Marfim, da onde eu olhava o mundo e enxergava um tabuleiro de xadrez. O mundo real foi esvaindo-se, descolorindo, desaparecendo...
Certo dia, eu estava às voltas com um problema de fonologia. Para não perder tempo, resolvi descer ao térreo para almoçar. Como o enxadrista que antecipa as jogadas na mente, eu poderia continuar resolvendo o problema durante o almoço.
Ao chegar ao térreo, vi fumaça e muita gente. Concluí que perderia muito tempo para almoçar e, por isso retornei ao elevador para subir ao décimo segundo andar. Ao chegar, soou o alarme de incêncio. BUEMBA!!! Onde há fumaça, há fogo - "mais é inteligente demais essa menina", diria o tio Contador.
Como a minha sala ficava bem perto do elevador, fui rapidinho buscar os papéis com narrativas em Nheengatu. Então desci os doze andares, caminhando, tranquilamente, com a tranquilidade dos holandeses que eu encontrava no corredor.
Ao chegar ao térreo e sair do edifício, percebi que estava nevando e eu havia esquecido o casaco. Afinal, por que lembrar do casaco que protege o corpo, quando era preciso salvar as narrativas em Nheengatu que alimentam a mente?
Em geral, tenho bastante preguiça de usar "Car@s colegas" ou "Caros e caras...", o texto de Tânia Rezende, me obriga a repensar minhas própeias práticas.
Se não somos militantes, que tenhamos alteridade
Em sessão do Supremo Tribunal Federal, no dia 10 de agosto, ocorreu o seguinte diálogo entre o presidente da Casa, ministro Ricardo Lewandowski, e a ministra Carmen Lúcia, recém-eleita à presidência do STF, a partir de setembro:
Concedo a palavra à ministra Cármen Lúcia, nossa presidenta eleita… ou presidente?
Eu fui estudante e eu sou amante da língua portuguesa. Acho que o cargo é de presidente, não é não?
É bom esclarecer desde logo, não é?
As escolhas linguísticas que fazemos revelam nossas ideologias e atitudes. Foi o que revelou a ministra Carmen Lúcia, ao responder ao presidente do STF, com uma justificativa sustentada na norma linguística (sou amante da língua portuguesa), o tradicional discurso de autoridade; subsidiada pela escola (Eu fui estudante), a agência de sustentação da norma; e legitimada pela nomeação (o cargo é de presidente), o poder da oficialidade. Com isso, a ministra mobilizou, em poucas palavras, poderosas agências de socialização de gênero, em defesa da manutenção da ideologia de gênero vigente na sociedade.
Não se trata, nesse caso, de “correção gramatical”, conforme sentenciam os gramáticos, rapidamente evocados pela mídia. Trata-se de preferência, como defende a mesma mídia. Mais que um fato linguístico, a marca de gênero em “presidenta”, atualmente, é o indicador de uma mudança social maior. Mikhail Bakhtin, em Marxismo e Filosofia da Linguagem (2006), defende que a linguagem, por ser ideológica, é o termômetro mais sensível das mudanças sociais. O embate a que temos assistido entre “presidente” e “presidenta”, desde a eleição de Dilma Rousseff para a Presidência da República do Brasil, em 2010, é a representação linguística de uma transformação social contemporânea.
Por exemplo, há algum tempo, observo, em Goiânia, que alguns homens, para expressar agradecimento a uma mulher, dizem: obrigada. Ou seja, o gênero gramatical concorda com o gênero social da interlocutora. Ao cumprimentar meus amigos indígenas nas redes sociais, pelo aniversário deles, eles me agradecem, dizendo também obrigada.
Algumas línguas indígenas fazem distinção entre a fala masculina e a fala feminina. Esse background linguístico pode estar orientando o uso do gênero centrado na interlocutora e não no locutor, quando esses indígenas falam em português. O fato de os goianos também marcarem o gênero gramatical do agradecimento, considerando o gênero social da interlocutora, aponta para a possibilidade de influências indígenas na cosmovisão e na epistemologia linguística goianas.
As explicações e as discussões sobre a língua são feitas na própria língua, fazendo com que “a cumplicidade ontológica entre as categorias linguísticas e as categorias sociais pareça natural” quando, na realidade, é construída e imposta. Ou seja, as práticas linguísticas seguem convenções, portanto, as tradições linguísticas são invenções discursivizadas, que podem ser (e são) desinventadas, da forma defendida por Cristine Severo (2016), em A invenção colonial das línguas da América, e muit@s goian@s já as estão reinventando no agradecimento.
Da mesma forma, no uso visibilizado do feminino, como em “bom dia a todas e a todos”, já bastante aceito; no emprego, na escrita, de “alunas e alunos” ou “os/as estudantes”, no lugar do falso genérico masculino “alunos”, “estudantes” para indicar masculino e feminino, invisibilizando ou, pior ainda, excluindo, as mulheres, não está em questão o pressuposto do certo/errado ou o que é ou não correto na língua, considerando o que diz a gramática normativa. Trata-se de uma escolha política de uma regra ideológica para dar existência e visibilidade às mulheres, na sociedade, pela linguagem.
Com relação ao emprego de símbolos, como ‘x’ ou ‘@’, o que está em questão é a ruptura epistemológica: rompe-se com a epistemologia maniqueísta de mundo, com a visão binária de gênero, e propõe-se uma concepção pluralista de gênero. Para além de feminino e masculino, propõe-se dar existência e visibilidade à pluralidade de gêneros existentes na sociedade. Trata-se de uma proposta mais inclusiva.
Enfim, se não somos e nem queremos ser militantes, temos de reconhecer que as conquistas das mulheres são devedoras das lutas e atuações históricas das militantes. Por isso, se não usamos uma linguagem, sobretudo uma escrita, menos sexista, porque não somos/não queremos ser militantes, usemos, então, pelo menos, por alteridade.
*Tânia Rezende é professora da Faculdade de Letras da UFG
Eu não sei se é. Tem uma frase do Autran Dourado que diz assim com relação à gramática: “É preciso aprender a gramática, para depois esquecê-la”. Vamos colocar isso de outro jeito: para você refinar a sua expressão escrita é importante desenvolver consciência sobre como a língua é e como ela funciona estruturalmente. Vamos pensar sobre a organização sintática como parte do processo. Então, quando eu estou lendo um texto, de repente parar num determinado momento, destacar e analisar um segmento e perceber que o autor usou orações coordenadas, que ele poderia ter usado subordinadas. É importante ter essa consciência, assim como ter consciência do funcionamento social da língua, de que você varia a língua conforme o contexto em que você está, conforme o gênero. Quer dizer, escrever um conto é diferente de escrever um poema; fazer um sermão é diferente de narrar um jogo de futebol. Há um processo todo que nós fazemos na adequação da linguagem. As duas coisas são importantes: língua na dinâmica interacional, social, e a estrutura da língua. A possibilidade de você rastrear no vocabulário palavras mais precisas para aquilo que você quer dizer, essa reflexão é fundamental. Agora, qual é o problema da gramática? A gramática é ensinada escolasticamente: você dá o conceito, o exemplo, e faz exercício. Isso não faz sentido para quem está se aproximando da língua e precisa compreender como ela funciona.
Carlos Alberto Faraco, em entrevista publicada aqui
Museu Antropológico recebe pesquisadora da Universidade de Leiden
Criada em 20/07/16 21:06. Atualizada em 21/07/16 13:47.
Mariana Françozo falou sobre a circulação de objetos e saberes indígenas na América Portuguesa e nos países Baixos
Texto: Natália Esteves
Fotos: Adriana Silva
Durante a colonização holandesa no Brasil no século 16, Maurício de Nassau governou a colônia holandesa no Nordeste do Brasil de 1637 e 1644. Dentre suas realizações, ele foi responsável pela criação do Museu Natural, Jardim Botânico e Zoológico de Recife, além da modernização da cidade. Nassau também ficou conhecido por ser um grande colecionador de objetos indígenas. É exatamente deste ponto que parte a pesquisa da professora Mariana Françoso, da Universidade de Leiden, na Holanda, sobre a circulação desses objetos e saberes entre a América Portuguesa e os países Baixos. A pesquisadora esteve no Museu Antropológico da UFG na tarde desta quarta-feira (20/7), onde ministrou palestra sobre o assunto.
Em sua fala, a pesquisadora afirmou que é necessário pensar os saberes indígenas como sistemas de conhecimento que funcionam assim como a ciência para explicar o mundo. "A ciência é a forma Ocidental de entender a natureza e o lugar do homem no espaço. Os conhecimentos indígenas fazem a mesma coisa, só que com outros conceitos e ideias. Precisamos entender que são sistemas que coexistem e que podem aprender um com o outro”, explicou.
O interesse da professora pela coleção de objetos predominantemente indígenas que Mauricio de Nassau adquiriu durante sua passagem pelo Brasil resultou no livro intitulado De Olinda a Holanda, que trata exatamente sobre a troca de saberes desses povos indígenas e objetos, mostrando a relação da construção do conhecimento colonial composto por diversos sujeitos.
Professa Mariana Françozo da Universidade de Leiden expõe o livro fruto da tese de doutorado
Atualmente a professora também desenvolve, ainda em fases iniciais, uma pesquisa sobre o livro História Natural do Brasil, publicado em 1648, com autoria de George Marcgraf e Guilherme Piso. A publicação é a primeira sobre geografia e natureza do Brasil. O projeto vai ser desenvolvido na Universidade de Leiden e contará com a contribuição na parte de linguística, da professora da Faculdade de Letras da UFG, Aline da Cruz.
Pesquisadora explicou que saberes indígenas devem ser pensados como a ciência
Lembra que falamos de William Stokoe AQUI? Nada melhor do que contar a história do "cara" em ASL, não é? rsrsrsr Mmmmm... como nem todo mundo vai conseguir entender, esbocei aqui uma legenda - assim, meus queridos alunos, podem ter uma ideia do que se conta no filme:
0,0:00:07.00 -
0 :00:09.00, - Você
sabia
0,0:00:09.00
- 0 :00:11.00,
- que antes de meados de 1950
0,0:00:13.00
- 0 :00:15.00,
- A língua de sinais americana
(ASL) foi
0,0:00:15.00
- 0 :00:17.00,
- vista como um Inglês
"quebrado"
0,0:00:17.00
- 0 :00:21.00,
- e não era reconhecida
0,0:00:23.00
- 0 :00:25.00,
- como uma língua verdadeira
0,0:00:25.00
- 0 :00:27.00,
- Como parte do Mês da História
do Surdo
0,0:00:27.00
- 0 :00:29.00,
- nóss queremos lembrar e honrar
0,0:00:31.00
- 0 :00:33.00,
- William "Bill"C.
Stokoe, Jr.,
0,0:00:37.00
- 0 :00:39.00,
- o linguista é conhecido por
0,0:00:39.00
- 0 :00:41.00,
- mostrar que a ASL é uma língua
de verdade
0,0:00:41.00
- 0 :00:43.00,
- similar a línguas orais
0,0:00:43.00
- 0 :00:47.00,
- com sentidos próprios
0,0:00:47.00
- 0 :00:49.00,
- com estrutura e sintaxe própria
0,0:00:49.00
- 0 :00:53.00,
- É por isso que nós o admiramos.
0,0:00:53.00
- 0 :00:55.00,
- pelo o que ele fez
0,0:00:57.00
- 0 :00:59.00,
- A pesquisa de Stokoe foi
revolucionária
0,0:01:01.00
- 0 :01:03.00,
- muitos linguistas pensavam que
a ASL
0,0:01:03.00
- 0 :01:05.00,
- era uma língua primitiva
0,0:01:05.00
- 0 :01:07.00, - que
imitava a língua oral
0,0:01:07.00
- 0 :01:09.00,
-
0,0:01:09.00
- 0 :01:11.00,
- O uso da ASL foi proibido
0,0:01:11.00
- 0 :01:15.00,
- em muitos cenários educacionais
0,0:01:17.00
- 0 :01:19.00,
- Frequentemente, as pessoas
surdas eram punidas por
0,0:01:19.00
- 0 :01:21.00,
- usarem ASL nas escolas de
surdos
0,0:01:21.00
- 0 :01:23.00,
- assim como na Universidade de
Gallaudet
0,0:01:23.00
- 0 :01:25.00,
- Entretanto, quando os
estudantes estavam
0,0:01:25.00
- 0 :01:29.00,
- juntos em seus dormitórios
0,0:01:31.00
- 0 :01:33.00,
- e em outros lugares, eles
sinalizavam
0,0:01:35.00
- 0 :01:37.00,
- o que ajudava a preservar a
língua
0,0:01:37.00
- 0 :01:39.00,
- Quando Stokoe chegou em
Gallaudet
0,0:01:39.00
- 0 :01:41.00,
- ele sabia pouco
0,0:01:41.00
- 0 :01:45.00,
- sobre a surdez e sobre a língua
de sinais
0,0:01:45.00
- 0 :01:47.00,
- Ele tinha sido contratado
0,0:01:47.00
- 0 :01:49.00,
- para ensinar inglês
0,0:01:49.00
- 0 :01:51.00,
- Como os outros professores de
Gallaudet,
HUSBAND: - Are you going to bring a bone to Leo?
WIFE: - No
- Why not?
- Mommy doesn't like bones because Leão destroyed a [veɪs]... - What? - A [veɪs] - Ah, you mean [vɑːz]... - [veɪs] - [vɑːs] - [vɑːz] is Dutch. - No, it is English - No, it is Dutch. Husband looks on the internet: - See, it is English! Wife looks on the internet: - Ah... come on... it is Dutch.
No final do mês, participarei de um encontro sobre políticas linguísticas (cf. http://e-ipol.org/i-encontro-nacional-de-municipios-plurilingues-i-enmp/ ). Professora Tânia e eu apresentaremos um trabalho a respeito da Documentação linguística em políticas de formação intercultural de docentes indígenas em que defenderemos que a documentação linguística, embasada em análises descritivas, constitui importante ação de fortalecimento
das línguas e dos povos minorizados.
Um caso bastante claro e famoso de contribuição da Linguística para fortalecimento de políticas públicas é representado pelo linguista americano Willam C. Stokoe, pioneiro nos estudos a respeito da línguas de sinais.
Antes dos trabalhos de
Stokoe, a língua usada pelos surdos americanos era considerada um "código
visual corrompido para o Inglês falado" ou, no máximo, uma “pantonímia
elaborada”. Stokoe demonstrou que a ASL (a língua de sinais americana) era, na
verdade, uma língua humana complexa assim como o Inglês ou o Português (cf. http://gupress.gallaudet.edu/stokoe.html).
Vários estudos descritivos, em Fonologia, Morfologia e Sintaxe, corroboraram a
tese de Stokoe. A partir desses estudos linguísticos, as línguas de sinais
começaram a ser cada vez mais respeitadas.Educadores e fonoaudiólogos – que sempre
insistiram em um ensino oralista – tiveram de reconhecer a importância das
línguas de sinais. O surdo tornava-se livre para se comunicar em sua própria
língua.
A relação entre linguística e lutas pelos
surdos é tão clara que muitos dos nomes que se destacam nos movimentos políticos
são linguistas. Basta citar a dedicação aos estudos linguísticos de pessoas
muito respeitadas (e admiradas!), como Ronice Quadros Muller, Sandra Patrícia Nascimento, Shirley
Vilhalva, Ana Regina Campello. Muitas dessas guerreiras começaram na Pedagogia,
mas precisaram do suporte da linguística para fortalecer sua luta.
Lembro-me que nas aulas de geografia, vulcões, montanhas e vales tranformavam-se em poesia. Parece que meus alunos têm o mesmo hábito, transformam em poema as palavras que eu digo de forma vaga, reflexões que se criam no próprio momento da sala de aula. Veja a organização que Simeão deu a uma frase minha:
Na próxima semana, começa o meu quarto semestre de UFG. Desta vez, fui convidada para um super desafio: ministrar "Fonética e Fonologia" e "Sintaxe" no curso de Letras, com habilitação em Língua Brasileira de Sinais. A ideia é apresentar Fonologia e Sintaxe a partir de uma perspectiva tipológica, de modo a trazer um suporte teórico para que os alunos reflitam sobre a estrutura das línguas naturais, orais ou sinalizadas. Estou ansiosa para esse novo desafio!!!
Para entrar no clima, vamos a um filme lindo sobre o primeiro amor entre um garoto ouvinte e uma garota surda.
A legenda é de Quintino Martins de Oliveira, intérprete da UFG.
Uma das coisas mais gostosas da escola é fazer amigos, conversar, falar baixinho enquanto o professor explica a lição. Quem nunca fez isso que atire a primeira pedra! E até na aula de inglês ou de francês ou de alemão, é sempre tão gostoso cochichar em português... (não consigo imaginar um aluno cochichando em outra língua). É na língua materna em que trocamos confidências, brincamos sobre o professor (quem nunca fez isso?)...
Mas em uma escola do Mato Grosso do Sul, alunos foram proibidos de cochichar em suas línguas maternas. Mais que isso, alunos que não sabiam ler tiveram de assinar um termo de compromisso de que não falariam suas próprias línguas na escola... Veja a reportagem no Terra.
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Em tempo, a Folha também registrou o ocorrido com um pouco mais de apuração (e muitos comentários!). Veja aqui.
Mas eis que de repente as IDEIAS VERDES surgem nos discursos de uma geração que começa a sonhar com um novo mundo.
"It will of course not always be easy to distinguish between pragmatic and genuinely linguistic restrictions. Nevertheless, this distinction is essential: the former can become irrelevant in a different world, the latter require a linguistic change."
Kastovsky. 1986. “The problem of productivity in word formation.” Linguistica 24 585-600.
Lembram do texto para o jornalzinho da faculdade? Chamou a atenção de um website holandês e virou notícia: http://www.kennislink.nl/publicaties/het-nheengatu-taal-van-de-amazone
Égua! Estou tentando encontrar as palavras para contar isso aqui no Blog porque parece tão auto-propaganda, mas é isso aí. Estou feliz que o trabalho esteja aparecendo.
Hoje recebi um email nojento sobre "os indígenas não deixam ninguém entrar em suas terras e nem falam Português" e coisas assim... Quem sabe se aprendêssemos a valorizar a diversidade cultural, linguística, biológica do nosso país, pararíamos com esse complexo de que os americanos "querem roubar nosso território" e começaríamos a pesquisar essas riquezas. Não só porque a ciência ganharia muito com as descobertas que podem ser feitas na Amazônia, mas também (e principalmente) porque assim teríamos mais força na luta pela preservação do ambiente, na luta por condições dignas para os habitantes da floresta (que ganhariam muito mais com o extrativismo do que com uma usina gigantesca e o corte da madeira para se criar latifúndios de produtividade baixíssima), etc...
Feche os olhos, tente voltar no tempo, para o tempo em que você era uma criancinha com seis ou sete anos. Primeira aula na escola e a professora começa a falar:
- Jetzt gehen wir lernen duits zu schreiben...
Putz!!! Ela está falando Alemão (naquela época, você provavelmente não conseguiria nem chegar a essa conclusão). E agora? Depois de chorar à beça, você ia acabar descobrindo que o melhor é ficar quietinho e fingir que está entendendo - cara de paisagem é sempre uma boa estratégia.
Se Alemão é difícil para nós. Português é difícil para as crianças alemãs nas escolas de comunidades pequeninhas no Rio Grande Sul. Clarice Lispector, falante nativa de íidiche, deve ter aprendido muito sobre o silêncio na experiência da escola monolíngue em Português para crianças que não falavam Português.
Durante a segunda guerra, Getúlio Vargas decidiu proibir as línguas estrangeiras no Brasil, especialmente Alemão, Italiano e Japonês - justamente três dos povos que formam boa parte da sociedade brasileira do sul do país. Proibir na ditadura getulista significava prender quem desobedecia, torturar etc.
Não era a primeira vez que um decreto proibia a diversidade linguística do território brasileiro. Já em 1757, Pombal proibiu que as pessoas falassem a língua geral no território de Maranhão e Grão Pará. De ditadura em ditadura, chegamos à proibição das línguas dos imigrantes.Só em 1988, começamos a mudar esse quadro - os povos indígenas passaram a ter o direito constitucional de ensinar em suas próprias línguas. Os povos estrangeiros, no entanto, continuam silenciados pela lei do monolinguismo.
O vídeo fala de política linguística no sul do Brasil e menciona o documentário Walachai de Rejane Zilles (Brasil, 2009). Estou morrendo de vontade de ver, mas acho que vou levar um tempinho para ter acesso. Vai a dica para quem está no Brasil (a Biblioteca da ECA-USP costuma ter esses filmes):
Escrever sobre a tese de maneira simples, curta, não ténica de maneira que todos possam entender e ainda em Holandês. Ah!!! Como assim? Exatamente, essa a tarefa que o setor de impressa da faculdade me passou.
Traduzido para o Holandês e com algumas alterações na ordem, não é que colocaram no jornalzinho da faculdade com um certo destaque (claro que a jornalista cometeu uns errinhos de grafia, afinal se não sabe colocar acento no "u", melhor eliminá-lo, né?):
Clique para ver aumentado
A foto foi feita em novembro de 2007 na comunidade de Anamoim, rio Xié. A senhora idosa é Lina, mais antiga moradora da comunidade e uma das últimas falantes de Werekena.
O texto original:
Phonology and Grammar of Nheengatú, the ‘língua geral’ spoken by Baré, Baniwa and Warekena
by Aline da Cruz
When Portuguese colonizers arrived in Brazil in the 16th century, they were confronted with a large number of indigenous communities and a great linguistic diversity. Rather than teaching Portuguese to the indigenous groups, the colonizers chose to communicate using Tupinambá: a Tupi-Guarani language spoken by the natives of the coast. This ‘lingua geral’, which roughly translates to ‘everybody’s language’, was carried out into the Amazonia where it became the main language of the many different groups of indigenous people there. Nowadays, it has evolved into Nheengatú, a language that is spoken by only 5000 people in the North-West of Brazil.
Aline da Cruz, gast-promovendus at the VU, has recently finished her dissertation on Nheengatú. For studying the phonological, morphological and syntactical aspects of the language, she spent several months living amongst Baré, Baniwa and Warekena communities in the Amazonia. In her dissertation she shows that the language has been influenced by Portuguese. This was concluded from observing the relatively large number of Portuguese loanwords; the changing of the word order to that of Portuguese; and the presence of a third person plural marker, which is unheard of for a Tupi-Guarani language.
Naturally, Nheengatú has also preserved characteristics of its language-family. For instance, like other Tupi-Guarani languages, it does not have adjectives. Instead, a word such as ‘tall’, an adjective in Portuguese, is a verb in Nheengatú: ‘be tall’. For a more complete description of Nheengatú, the Portuguese reading reader is referred to the dissertation.
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