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sexta-feira, 19 de janeiro de 2018 0 comments

Raduan

Munch, Separation
"Não me mexi na cadeira quando percebi que minha mulher abandonava o seu canto, nao ergui os olhos quando vi sua mão apanhar o bloco de rascunho que tenho entre meus papéis. Foi uma caligraifa rápida e nervosa, foi uma frase curta que ela escreveu, me empurrando o bloco todo, sem destacar a folha, para o foco dos meus olhos: 'vim em busca de amor' estava escrito,e em cada letra era fácil de ouvir o grito de socorro. Não disse nada, não fiz um movimento, continuei com os olhos pregados na mesa. Mas logo pude ver sua mão pegar de novo o bloco e quase em seguida me devolvê-lo: 'responda' ela tinha escrito mais embaixo numa letra desesperada, era um gemido. Fiquei um tempo sem me mexer, mesmo sabendo que ela sofria, que pedia em súplica, que mendigava afeto. Tentei arrumar (foi um esforço) sua imagem remota, iluminada, provocadoramente altiva, e que agora expunha a nuca a um golpe de misericórdia. E ali, do outro lado da mesa, minha mulher apertava as mãos, e esperava. Interrompi o rabisco e escrevi sem pressa: 'não tenho afeto para dar'. (Raduan Nassar, Hoje de madrugada)
quinta-feira, 7 de dezembro de 2017 0 comments

A Descoberta

Capitu deu-me as costas, voltando-se para o espelhinho. Peguei-lhe dos cabelos, colhi-os todos e entrei a alisá-los com o pente, desde a testa até as últimas pontas, que lhe desciam à cintura. Em pé não dava jeito: não esquecestes que ela era um nadinha mais alta que eu, mas ainda que fosse da mesma altura. Pedi-lhe que se sentasse.
— Senta aqui, é melhor.
Sentou-se. Vamos ver o grande cabeleireiro, disse-me rindo. Continuei a alisar os cabelos, com muito cuidado, e dividi-os em duas porções iguais, para compor as duas tranças. Não as fiz logo, nem assim depressa, como podem supor os cabeleireiros de ofício, mas devagar, devagarinho, saboreando pelo tato aqueles fios grossos, que eram parte dela. ( continua aqui).

Suspiros... a menina de 11 anos, ela-mesmo-eu, se instala. O texto estava lá, perdido no meio do livro de quinta série. Um livro horroroso, capa branca de letras vermelhas, com o símbolo do SESI para todo lado, sem graça nenhuma... Mas capa não conta história e, lá dentro, perdido entre uma lição e outra, deparei-me com esse menino atrevido fazendo um penteado. Naquela época, não havia para mim nenhum Machado de Assis, nem Dom Casmurro, nem Bentinho... Apenas Capitu aparecia ali, tão-o-que-eu-queria-ser, ganhando o primeiro beijo. Nesse tempo, eu imaginava como era esse negócio de beijar - devia de ser bom, porque mamãe que sempre foi tão pacífica, ameaçava-me com uma chinelada só de pensar ...

Não sei quanto tempo se passou, um ano talvez, e lá na estante da sala, só para o meu irmão mais velho ler, estava Feliz Ano Velho. Eu queria tanto ler! Mas a mamãe fez terrorismo sobre ser um livro para o Flávio  - eu não estava pronta ainda! Ah! Essas mães que não batem, mas que sabe-se-lá-como despertam medo. Como sou muito corajosa, inventei para mim mesma que o livro era muito grosso. E como lógica não estava entre os meus fortes, estabeleci uma meta: leria o livro-mais-grande-da-estante e, se conseguisse, seria adulta o bastante para enfrentar Marcelo Rubens Paiva.

Vejam bem, a estante da sala não era nenhuma biblioteca dos sonhos. Dos sonhos, havia apenas a coleção de Monteiro Lobato. O restante do acervo havia sido composto à medida que os nossos professores iam pedindo. Meus pais, um projetista e uma auxiliar de enfermagem fantásticos, não tiveram a chance de ir para a universidade, mas sabiam que nós, as crianças, chegaríamos (e chegamos!). Pois bem, havia também uma enciclopédia, comprada pela mamãe no INAMPS (nada de livraria, enciclopédia se compra com caixeiro-viajante). Uns dez livros cor-de-burro-quando-foge, três livros amarelos de culinária, e três livros cinzas, com a palavra Clássicos grafada em prateado na lômbada. Não sei qual o critério, mas havia ali Schopenhauer, Erasmo de Roterdã e Machado. E não é que era bem o livro da Capitu!





terça-feira, 26 de setembro de 2017 0 comments

O regresso



Muitos e muitos anos atrás, Ulysses partiu e levou vinte anos para retornar à  casa em que Penélope lhe aguardava... Vinte anos lutando as mais duras batalhas, vinte anos vendo a morte, lidando com decepção e ódio. Na história grega, o retorno é celebrado, é festivo. Mas o que de fato acontece após vinte anos vivendo os horrores de uma guerra? Vinte anos depois de conviver com a morte, ou com a loucura, ou com a tristeza?

Há um conto japonês que trata exatamente de um homem que regressa da guerra, regressa de conhecer o pior lado da humanidade. Ao chegar, sua esposa o recebe com festa, alegria, boa comida, e com toda exuberância da mulher que, apesar do passar dos anos, se manteve bela e tão apaixonada (ou mais!) quanto a menina de dezesseis anos.

O primeiro encontro é celebrado junto ao mar. No momento exato em que se veem depois de vinte anos, os olhos voltam a brilhar, o coração palpita, é impossível manter a seriedade que se espera de duas almas que, após vinte anos, deveriam se comportar como amigos que não se veem há tanto tempo. Junto ao mar, longe de todas as guerras, longe da realidade, a única coisa que importa é curtir aquele momento, eternizá-lo. E cada toque lembra uma intimidade que nunca foi possível com nenhum dos amores que o sucederam.

Ainda que mágico, ainda que revelador de uma sintonia incrível, era apenas um final de semana. Nos dias que se sucederam, o homem decide retornar à guerra. Talvez por culpa, medo, fuga, não importa... Durante algum tempo, a mulher continua a enviar cartas, tenta dizer para si mesma que o amor é construído de paciência, persistência, permanência, paixão e perdão. A cada carta, porém, a ferida reabre... Então, para continuar vencendo as batalhas de cada dia, as batalhas que têm vencido sozinha nos últimos vinte anos, a mulher, ainda que dolorosamente, decide diminuir a frequência das cartas, até que se silencia. Não porque deixou de se importar, mas porque foi percebendo que era uma questão de sobrevivência.



terça-feira, 27 de junho de 2017 0 comments

Eternamente presa na mesma narrativa

No meu primeiro ano de Faculdade, foi estabelecido um sistema de "ranqueamento" dos alunos do curso de Letras para que, a depender da nota, os alunos pudessem escolher as opções de carreira (vulgo, línguas) que pretendiam cursar. Aqueles que obtivessem a melhor nota, poderiam escolher as opções mais valorizadas, como Inglês, Espanhol, Francês e - pasmem! - Linguística. Os que obtivessem as piores notas sobrariam para cursos extremamente interessantes, mas pouco práticos em termos comerciais, como Armênio, Hebraico, Grego Clássico, Russo, entre outros. Por isso, havia uma grande competição entre nós, alunos.

Certa vez, cheguei à faculdade cedo e, nenhum dos meus amigos estava por lá. Vi, então, um grupinho de colegas conversando - aliás discutindo exaltados sobre a prova de Introdução aos Estudos Clássicos - e, ingênua, resolvi me aproximar:

- Ela colou!!! Aquela vaca! Ela colou!!!???
- Mas quem é essa Aline?

E todos apontaram para mim: - É esta!!!

Não, eu não havia colado. Eu apenas havia tirado 9,5 em uma prova. Não que eu fosse excelente aluna. Na verdade, na primeira prova  - a minha primeira prova na USP - eu havia tirado apenas 0,5 e de tanta vergonha, estudei como uma louca. Resultado: na segunda prova, eu quase gabaritei, e fiquei com a nota mais alta da turma.

Quando eu tirei 0,5, ninguém se incomodou. Poderíamos juntos falar mal do sistema, da professora, do cazzo... Ah... mas quem poderia lidar com meu 9,5, não é mesmo?



Se passaram quase vinte anos, e eu continuo presa na mesma narrativa...
 
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