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quinta-feira, 16 de março de 2017 1 comments

O índio do século XXI



O Rio de Janeiro continua índio 450 anos depois de sua fundação, mas nenhum guarani foi convidado para a festa de aniversário. No dia 1° de março, nenhum índio soprou a velinha do tradicional bolo de quase meio quilômetro que a Sociedade dos Amigos da Rua da Carioca fez para festejar os 450 anos da cidade, como parte da programação que prevê, ao longo do ano, a realização de 600 atividades: conferências, seminários, projeções, exposições, missa, performances, teatro, orquestras, bandas, salva de tiros, regata… Os índios, porém, estão ausentes de quase todas e da própria mídia, embora estejam presentes na história carioca, a passada e a atual.
A mídia, como regra geral, prefere folclorizar a figura do índio. Em pleno século XXI, jornais ainda estranham o fato de índios usarem iPhone, como se isso fosse algo inusitado. Desta forma, congelam as culturas indígenas e reforçam o preconceito que enfiaram na cabeça da maioria dos brasileiros de que essas culturas não podem mudar e se mudam deixam de ser “autênticas”.
A imagem midiática do índio “autêntico” é a do índio nu ou de tanga, no meio da floresta, de arco e flecha, tal como foi visto por Cabral e descrito por Caminha, em 1.500. Essa imagem ficou congelada por mais de cinco séculos. Qualquer mudança nela provoca estranhamento.
Quando o índio não se enquadra nesta representação que dele se faz, surge logo reação: “Não são mais índios”. O “índio de verdade” é o “índio de papel”, da carta do Caminha, que viveu no passado, e não o “índio de carne e osso” que convive conosco, que está hoje no meio de nós.
Na realidade, trata-se de manobra interesseira. Se o índio é destituído de sua identidade, nega-se a ele o direito garantido pela Constituição de 1988 do usufruto de suas terras¿—¿que são consideradas juridicamente propriedades da União. Nega-se a identidade indígena aos que hoje as ocupam. Se são ex-índios, então não têm direito à terra.
Criou-se, através dessa manobra, uma nova categoria até então desconhecida pela etnologia: a dos “ex-índios”. Uma categoria tão absurda como se os índios tivessem congelado a imagem do português do século XVI, e considerassem o escritor José Saramago ou o jogador Cristiano Ronaldo como “ex-portugueses”, porque eles não se vestem da mesma forma que Cabral, não falam e nem escrevem como Caminha.
O cotidiano de qualquer cidadão no planeta está marcado por elementos tecnológicos emprestados de outras culturas. A calça jeans, o paletó e gravata que vestimos não foram inventados por brasileiro. A mesa e a cadeira na qual sentamos são móveis projetados na Mesopotâmia, no século VII a. C., daí passaram pelo Mediterrâneo onde sofreram modificações antes de chegarem a Portugal, que os trouxe para o Brasil.
A máquina fotográfica, a impressora, o computador, o telefone, a televisão, a energia elétrica, a água encanada, a construção de prédios com cimento e tijolo, toda a parafernália que faz parte do cotidiano de um jornal brasileiro¿—¿nada disso tem suas raízes em solo brasileiro. No entanto, a identidade brasileira não é negada por causa disso. Assim, não se concede às culturas indígenas aquilo que se reivindica para si próprio: o direito de transitar por outras culturas e trocar com elas.
Foi o escritor mexicano Octávio Paz que escreveu com muita propriedade que “as civilizações não são fortalezas, mas encruzilhadas”. Ninguém vive isolado, fechado entre muros. Historicamente, os povos em contato se influenciam mutuamente no campo da arte, da técnica, da ciência, da língua. Tudo aquilo que alguém produz de belo e de inteligente em uma cultura merece ser usufruído em qualquer parte do planeta.
Setores da mídia ainda acham que “índio quer apito”. No currículo dos cursos de comunicação social que formam jornalistas, não circula qualquer informação sobre as culturas indígenas, que são vistas como algo do passado. O antropólogo Darell Posey, que trabalhou com os Kayapó, escreveu:
“Se o conhecimento do índio for levado a sério pela ciência moderna e incorporado aos programas de pesquisa e desenvolvimento, os índios serão valorizados pelo que são: povos engenhosos, inteligentes e práticos, que sobreviveram com sucesso por milhares de anos na Amazônia. Essa posição cria uma “ponte ideológica” entre culturas, que poderia permitir a participação dos povos indígenas, com o respeito e a estima que merecem, na construção de um Brasil moderno”.
Esses são os índios do século XXI. A mídia olha para eles, mas parece que não os vê.
Jose Ribamar Bessa Freire é professor da Pós-Graduação em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro.
Retirado de: https://www.sescsp.org.br/online/artigo/9021_OS+INDIOS+DO+SECULO+XXI
sábado, 9 de agosto de 2014 0 comments

Uma noite inesquecível


Há pouco mais de uma semana, estávamos todos juntos no quintal. Brindamos à saúde, brindamos pela alegria de podermos comer um tambaqui assado na brasa. A dona da casa estava tão feliz pelo peixinho fresquinho que viera de outros rios. Seus netos brincavam de pega-pega. Seus filhos bebiam uma cervejinha. A Baniwa e a Kunhã-kariwa também, mas com um auto-controle exagerado. “O senhor bebeu?”, diria mais tarde o pequeno.
No final da noite, meu velho amigo Dessano voltou para casa com as crianças de moto. E, nós, mulheres, ficamos encharcadas à espera de uma lotação. E rimos juntas, celebrando um companheirismo que começava a nascer. Rimos ainda mais quando percebemos que éramos as donas das chaves.

Hoje, após dias sem entrar no Facebook, recebi a notícia de que um dos garotões havia partido :(
 
São Paulo, 08 de agosto de 2014.
domingo, 8 de janeiro de 2012 2 comments

Celina, a amiga e a professora


Minha primeira professora de Nheengatú, Profa. Celina, morava em uma casinha de madeira em uma rua do centro de São Gabriel. Vez ou outra, eu passava por lá, sentava, observava ela corrigir as provas (e, às vezes, a ajudava a corrigir), tomávamos um suco gostoso de araçá e conversávamos por horas. Conversávamos sobre as aulas de Nheengatú, sobre o pai dela, sobre quando a pequena nasceu, sobre os últimos acontecimentos em Gabriel... Sempre preocupada com os filhos, com os netos, com os alunos, com o marido e com a vida difícil que levava. Toda a preocupação não lhe tirava o sorriso...

Também trabalhamos muito - o que aliás também era sinônimo de diversão: rimos muito, transcrevendo um mito baniwa; discutimos política, transcrevendo depoimentos de lideranças. Na última vez que estive em São Gabriel, Celina estava trabalhando em período integral e, por isso, não tinha como trabalhar nas transcrições. Generosa, me apresentou a Profa. Marlene, outra figura fantástica do universo gabrielense. Com Profa. Marlene, transcrevi boa parte dos textos usados na gramática do Nheengaú. Quando as duas se juntavam, riam de mim que só. 

Lembro-me que uma vez encontrei Celina em uma festa junina na praia. Ela estava tão bonita com uma blusa preta, radiante ao lado do marido. Ele contava histórias e ela ria, ria... Não há como falar de Profa. Celina sem lembrar ser contagiada por seu sorriso. 


sexta-feira, 15 de outubro de 2010 4 comments

Grandes professores!

Yũbuesa resewara


Purãga awasemu
Apuderi asasemu
Anhegai, se anama ita irumu
Sikaisa upe,
Yũbuesa upe,
Pinimasa upe.
Apita xĩga sasiara
Ti resewa ayũbue ayupe tupé.
Kuxima kariwa ti tãbue kuaye
Kuiri waa yawe
Kuiri suri ayũbue
Apitana waa upe, tuyue

Kuarire sunde kiti,
Yayupe kuri tipiti
Reputari rame rekua panhe maã rese,
Reyui kua kiti.
Rekuarã kuri, mame upita Bimiti.

Yane raira ita rupi,
Yane rimiariru ita runde.
Yasu yamãduai purãga
Takuarã awa yãde,
Takuarã awa aita.
Yepeasuarã yapita.


Florêncio Cordeiro da Silva

Outubro / 2007
Publicada em  IPÊ - Indios Pensamento e Educação. UFMG
sábado, 3 de julho de 2010 0 comments

O Jornalismo marrom ataca novamente

"Indiferentes à Copa, índios trocam os jogos do Brasil por 'peladas' no quintal", esse é o título de uma reportagem aparentemente despretenciosa no UOL. Só aparentemente... A reportagem é uma clara demonstração do anti-indigenismo da imprensa brasileira (haja vista, o caso Veja X Viveiros de Castro).

A jornalista visitou uma comunidade indígena Guarani durante o jogo do Brasil e viu poucas pessoas no centro comunitário assistindo ao jogo e crianças jogando uma pelada no quintal. Dessas duas imagens, concluiu "Torcer pela seleção brasileira à maneira indígena é sinônimo de vestir e enfeitar as casas com algum verde e amarelo, mas sem abandonar o ritmo desacelerado de hábito nem sofrer ou se revoltar pelo resultado". No decorrer do texto, entretanto, o diretor da Associação Indígena explica que muitos estavam vendo o jogo em casa (mas a jornalista não se deu ao trabalho de visitar as casas para ver). Os que foram ao centro, saíam antes. Demonstração de falta de interesse? Dá a entender a jornalista do UOL... Eu diria que é o jeito deles de se comportarem diante de um jogo patético... (Meu Namorado, holandês, ao ver a linda atuação do Brasil no comecinho do primeiro tempo, também levantou e foi levar o lixo pra fora - demonstrando que não queria ver seu país levar uma goleada).

A jornalista só en passant cita o fato dos Guarani enfeitarem as casas de verde-amarelo e não comenta o fato das fotos mostrarem crianças com camisetas do Brasil. Um lugar muito pobre, mas ainda assim gastaram dinheiro com decoração e camiseta. Isso não é torcer pelo Brasil?

Eu não estava lá para ver... Mas nas comunidades indígenas em que estive no Rio Negro, sempre vi demonstrações quase ufanistas de patriotismo. Vejam as fotos:


Toda sexta-feira em Anamuim (Rio Xié), as crianças cantam o Hino Nacional e hasteiam a bandeira (foto de 2007)


Boa Vista (Içana) se preparando para o Desfile de Sete de Setembro, que reuniu na comunidade vários indígenas da região. Nesta mesma comunidade, eu vi todos cantando o Hino no dia do soldado. (Não me lembro de festa ao soldado na minha escola em Sao Bernardo do Campo).
segunda-feira, 28 de junho de 2010 0 comments

Encontro


"O antigo nome do Rio Negro era Quiari. Na parte superior conserva o de Uéneyá. Entre no Amazonas na latitude austral de três gráos e nove minutos, sendo o seu maior tributario. [...] Hé espetáculo admiravel o seu encontro com o Amazonas, lutando ambos como em porfia para fazerem predominar a côr das suas aguas: mas fica o Amazonas vencedor, arrojando valente o negro para a margem oposta, o qual imperceptivelmente se vai misturando com o Amazonas, até que em breve espaço se faz dominante a côr esbranquiçada das aguas deste". Francisco de Sampaio, em viagem realizada entre 1774 e 1775 (citado por Guzman,p.22)
sábado, 1 de maio de 2010 5 comments

O Bongo - a canoa e o livro





Com quantos paus se faz uma canoa? Um! Apenas um!

Os Werekena, povo Arúak, usam apenas um grande tronco de madeira para construir o "bongo" - uma canoa gigantesca que serve para a comunidade de Anamuim no Alto Rio Xié levar seus produtos até São Gabriel da Cachoeira. Uma viagem impressionante tanto pela beleza natural quanto por permitir que os Werekena de cada parte do rio troquem mensagens, discutam política, revejam os parentes, etc.

Em 2006, os professores da Escola Indígena Diferenciada de Anamuim propuseram aos seus alunos de ensino fundamental que acompanhassem os mais velhos na construção de um bongo comunitário. Os professores aproveitam o tema para explicar aos alunos conceitos de medida, aerodinâmica, etc. O livro mostra também como todos os membros da comunidade e parentes de comunidades vizinhas se juntam para construir o bongo.

O resultado da pesquisa desses jovens indígenas transformou-se em um livro ilustrado, em que são descritas detalhadamente todas as etapas da construção: a escolha da árvore, o corte, a tarefa de esculpir a canoa na madeira, a queima, até a festa da primeira viagem.

Quando estive em Anamuim, trabalhei com os professores na edição do manuscrito para a forma digital. A pedido dos próprios autores, fizemos uma tradução para o Português (que fica no finalzinho do livro para não atrapalhar a leitura dos falantes de Nheengatú). No ano passado, levei uma cópia impressa para uma outra comunidade bem longe - a idéia era verificar se a escrita dos Werekena podia ser compreendida pelos Baré em Boa Vista. O resultado foi positivo.

Agora vem o mais difícil, conseguir verba para publicar. O projeto está com a FOIRN e também com a Secretaria de Educação do Município. E quem sabe alguém se interesse por publicar.



Referências
Cordeiro, Florêncio e outros. Maye yamunhã bungu - A construção do bongo. Texto e ilustrações produzidos pelos alunos da Escola Indígena Diferenciada de Anamuim, São Gabriel da Cachoeira. A ser publicada quando obtivermos ajuda.
domingo, 25 de abril de 2010 0 comments

Magistério Indígena


"Cursistas" de Magistério Indígena para falantes de Nheengatú, comunidade de Assunção do Içana, outubro/2007.


Em São Gabriel, estão organizando mais uma etapa do Magistério Indígena. Trata-se de uma iniciativa da prefeitura e do governo do estado do Amazonas para dar uma formação, equivalente ao ensino médio, para que jovens indígenas sintam-se preparados para educar.

Uma educação diferenciada em que se pretende formar cidadãos para viver bem em suas próprias comunidades. Por isso, se vê como essencial o ensino por meio de pesquisa - a descoberta dos mitos com os antigos; as técnicas tradicionais de cultivo; a matemática por trás das formas das coméias, da fabricação de canoas; o funcionamento do rádio comunitário; a medicina tradicional; formas de desenvolvimento sustentável, entre outros tantos temas, escolhidos de acordo com as necessidades de cada grupo.

Também estão preocupados com as melhores formas de alfabetizar em língua materna - um desafio comum a todos os povos indígenas. (Não se engane: O fato de professores de Português ou Inglês terem uma quantidade absurda de materiais didáticos, não torna a tarefa do educador mais simples - talvez até atrapalhe).

A seu favor, esses jovens professores tem o apoio de suas comunidades. Engraçado como as pessoas mais simples, muitas vezes analfabetas, acreditam na importância da educação - muito mais do que nós que a temos. Basta ver a eleição. No Rio Negro, o discurso da educação sempre elege prefeito (mesmo que nem sempre as promessas sejam cumpridas). Em São Paulo, terra de tanta "gente estudada", Maluf foi eleito tantas vezes, apesar do "professorinhas mal casadas"; Mário Covas é mitológico, apesar da ovada de professores mal-remunerados... Só para lembrar os casos mais marcantes.

E nas próximas eleições: Que valor daremos à educação?
terça-feira, 13 de abril de 2010 0 comments

Dabaru: o destino dos indígenas na cidade


Na foto, eu, Joaquim, Nancy e o pequeno Diego na Casa do Indio no Dabaru.



Segundo Stradelli, Dabaru é um “velho instrumento de supplicio indígena, formado por dous fortes esteios fincados no chão, unidos por uma forte travessa á altura de quatro a cinco metros. A travessa estava suspenso por uma corda um grosso bloco de pedra, prompto a despencar sobre o paciente, logo que fosse cortada a corda. A morte era produzida por esmagamento”. A palavra tem origem no Baré ou no Baniwa.

Por ironia, Dabaru é também o nome de um dos bairros da periferia de São Gabriel da Cachoeira.

No Dabaru, moram Baré, Tukano, Dessano... todos aqueles que decidiram deixar a comunidade em área indígena em busca de uma vida melhor cidade. Buscam principalmente postos de saúde mais bem equipados, escolas públicas (principalmente para formação de jovens em ensino médio), e a possibilidade de aprenderem a usar computador e outras 'coisas de branco'.

Ali, muito da cultura é recriado: centro comunitário, o fato de todo mundo se conhecer, etc. Mas no Dabaru, não há espaço para roça, então é preciso viajar de ônibus um bocado todos os dias para roçar. Ou comprar beijú e farinha dos que chegam de área. O preço, no entanto, não é nada convidativo.

Bairro periférico, há poucas formas de diversão; a violência aumenta progressivamente; os preços da cidade são de arrepiar; a elite da cidade dificilmente contrata indígenas para trabalhar no comércio; muitas casas não tem banheiro. Se a prefeitura precisa economizar em luz elétrica e água encanada, fará primeiro no Dabarú (e nos bairros vizinhos, Areal, Miguel Quirino).

Rapidinho, o sonho da cidade se transforma logo em sonho de voltar a comunidade.

Para que ninguém abandone a própria comunidade, bastaria investir na formação de professores indígenas e garantir que o sistema de saúde chegasse nos momentos mais necessários na comunidade.
terça-feira, 6 de abril de 2010 2 comments

O Rio Xié


O Rio Xié não está no Google Maps, mas existe :) No Google, dá para ver apenas uma frestra na terra em paralelo ao Rio Içana.

Habitado por 966 pessoas (segundo o relatório do distrito de saúde de 2008), o rio Xié é território dos Werekena. Trata-se de um rio de muito difícil navegação, porque há corredeiras - ou "cachoeiras" como dizem no dialeto gabrielense - que impedem a passagem de barcos (até mesmo de canoas, como se pode ver na foto).

A separação entre o sul e o norte do Rio Xié não é apenas detalhe do relevo, traduz-se também nos hábitos e na língua. E, segundo Aikhenvald (1998), até o dialeto do Werekena ainda falado no sul do Rio Xié difere dos dados coletados sobre o dialeto de Anamuim (a comunidade na fronteira norte do Xié).

Quanto aos hábitos, observa-se a diferença em como norte e sul se colocam em relação às religiões "estrangeiras". Ao sul do Rio Xié, prevalece o protestantismo, enquanto ao norte, o catolicismo. Na Europa, as brigas entre essas religiões já deixaram de ser relevantes há mais de duzentos anos. No Xié, no entanto, temos a impressão de que estamos à beira da Noite de São Bartolomeu - com o exagero próprio dos blogs, claro!

Enquanto os Werekana discutem, perdem a possibilidade de criar movimentos fortes para defender sua terra, sua cultura, sua língua. A FOIRN está dando apoio para que o norte e o sul se entendam.

Acredito que uma das formas de reestabelecer o diálogo e o orgulho de ser Werekena é a partir de projetos de revitalização da língua Werekena. Já em 1903, Nimuendajú registrou que a maioria dos Werekena era bilíngue em Nheengatú e Werekena (Christino 2007). Hoje, passados mais de cem anos, há apenas 20 falantes idosos e, possivelmente, cerca de 100 adultos a compreendem. Resgatar uma língua é resgatar um povo e sua cultura.

Quer saber mais:Marcio Meira. O tempo dos patrões.
domingo, 28 de fevereiro de 2010 0 comments

Uma guerreira no estudo do Sateré

Há cerca de seis ou sete anos, uma jovem amazonense formada na UFAM se propôs a estudar uma língua indígena de sua terra. Com o apoio do Prof. Stefanni, a garota escreveu um projeto e enviou para universidades públicas do norte. Apenas por desencargo de consciência enviou também para a UNICAMP.

Por ironia, as universidades do norte não estavam interessadas nessas tais de línguas da terra. E foi a conceituadíssima UNICAMP que aceitou a jovem. A garota vendeu um fusca velho e foi em busca de um sonho. O marido a apoiou na decisão e a filhinha foi junto.

Muito estudo, rendeu-lhe uma análise fonológica e agora a Doutora Raynice descreveu a morfologia e a sintaxe dos Sateré. Na platéia, estavam o marido e as crianças, claro. O melhor de tudo é que ela agora é professora da UFAM e poderá orientar outras 'raynices, frantomés, ana carlas' amazônicas a estudar as línguas de suas terras.
domingo, 21 de fevereiro de 2010 1 comments

A noite feminina em cidades pacíficas: Amsterdam e Gabriel




Ontem, encontrei amigas em Amsterdam e fomos ao Lolas, um bar com música alta, cheio de gente bonita. Cada uma veio de um canto da cidade e nos encontramos em Leidseplein. Para voltar para casa, cada uma também seguiria seu destino individualmente.

Em São Gabriel, eu e a Amiga-Professora-Educação-Física também saíamos bastante sozinhas. Iamos ao Puranga ou ao Kuka - os bares frequentados pelo pessoal da saúde e militares. Mais tarde, fiz outras amizades, com mulheres que viviam na cidade, e passei a dançar no Pé de Cará.

Amsterdam e São Gabriel permitem que suas belas mulheres saíam sozinhas - para dançar, para beber, para paquerar -, porque conciliam segurança e transporte noturno de qualidade. Em Amsterdam, qualquer garota pode pegar um ônibus, que tem horário certo para passar, e ir para sua casa tranquilamente. O preço varia entre 3,90 (dentro de Amsterdam) até 6 euros (para cidades mais distantes, como a minha Hoofddorp). Em Gabriel, é ainda mais fácil, as lotações esperam os clientes na frente dos bares. Basta pagar 5 reais e te levam para qualquer lugar da cidade.

Transporte de qualidade com preço razoável e segurança garantem a liberdade que as mulheres paulistas e cariocas perderam há muito tempo.
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010 2 comments

Sobre o tráfico...

Quando cheguei em São Gabriel em agosto do ano passado, fui abalada pela notícia de um crime hediondo: um jovem havia sido posto em chamas. O motivo? Os índigenas com quem eu trabalhava e os motoristas das lotações logo me esclareceram: tráfico.

Há pouco mais de cinco anos, dizem os moradores da cidade, este tipo de crime era impensável, fazia parte apenas do imaginário popular do que seriam cidades grandes como Barra (Manaus), Rio ou São Paulo.

Por que jovens gabrielenses - filhos de comerciantes, caboclos ou índigenas - se envolvem com o tráfico? A resposta é a mesma que leva jovens de favelas no Rio, imigrantes africanos nas ruas de Amsterdam: dinheiro. Variam, claro, as moedas e os valores. Uma viagem de Sao Gabriel à Manaus de voadeira não vale mais que mil euros (o que é rídiculo se pensarmos no risco).

Não há dúvida de que esses garotos devem ser punidos, mas o que dizer dos usuários? Todos reconhecemos que este é uma vítima, que o vício é uma doença, mas até que ponto jovens de classe média alta - paulistanos, cariocas, europeus - foram iludidos? O vício é uma doença, sim, mas também uma escolha: escolhe-se "experimentar". O usuário, por sua própria situação, está condenado, mas, ao decidir se destruir, condenou também jovens que nunca tiveram escolhas.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010 0 comments

Resposta confusa a um amigo (Ou sobre a Amazônia)

Se você quer uma viagem super-tranquila, com belas paisagens e um bom hotel, é caríssimo mesmo.

Hotéis no centro de Manaus não são caros, mas o máximo que você pode fazer é ir para o encontro das águas (viagem curtinha, mas que as agências de turismo fazem um pacote de um dia).

Melhor ir para as cidades do interior. Minhas amigas amazonenses recomendam "Alter do Chão". Há também uma festa importante em junho em Parintins (Festa do Boi).

Eu sempre vou para São Gabriel da Cachoeira. Cidade lindíssima! onde está o Pico da Neblina. O Marcelo (guia) faz 10 dias de passeio para o Pico da Neblina com carregadores, visita aos Yanomamis, hotel na cidade (1 noite) e tal por R$2.500 por pessoa (mas precisa de um grupo de 6). São Gabriel também tem outras opções: os lagos coloridos, a praia, a ilha do Sol, a ilha da Juísa. O problema, entretanto, é chegar lá (consulte preços na TRIP).
domingo, 10 de janeiro de 2010 0 comments

Foz do Içana


Já ouviu falar do Rio Içana?

Ele nasce na Colômbia, cruza a fronteira e desce cortando a floresta até desaguar no Rio Negro. Na Colômbia, o Isana é habitado pelos Kuripako. No Brasil, o Içana é território Baniwa. No baixo Içana, substituiu-se a língua Baniwa pelo Nheengatu, mas ainda se mantém muitas tradições.

Eu cheguei a presenciar Dabukuri em Assunção e também se ouve muitas histórias sobre Nhãpirikuli por aquelas bandas... O ritual de iniciação dos adolescentes - Kariamã -, entretanto, não é mais realizado, pois desde da chegada de Sofia Muller (missionária evangélica), não se vê com bons olhos a atuação dos pajés. E se não tem pajé, não tem Kariamã, e assim os jovens perdem a oportunidade de ouvir os conselhos dos antigos e se prepararem para a vida adulta.

Quer saber mais? Entra no blog do André Baniwa.
sábado, 12 de dezembro de 2009 0 comments

Dois mundos

Cerca de quatrocentas pessoas foram presas por protestarem em Copenhague durante a reunião da ONU. Os manifestantes eram os belos ambientalistas europeus que sonham com um mundo menos dependente do petróleo, um mundo mais perto da natureza.

Pela internet, também pude receber notícias de São Gabriel da Cachoeira. Não, não houve manifestação pelo clima, nem se comemorou o Dia Internacional dos Povos Indígenas. Pelo telefone, só pude saber que mais jovem Baré cometeu suicídio.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009 1 comments

Pé de Cará


Feche os olhos e imagine um quintal de casa, coloque umas mesas de ferro ao redor de um pé de cará... Este é o ambiente para do Pé de Cará, o salão de danças (?), discoteca (?) mais tradicional de São Gabriel da Cachoeira.

Merengue, forró, brega e Kuximawara (do Nheengatu, kuxima = antigamente; wara = o que tem origem em > Kuximawara, "o que vem de antigamente", por extensão "música de antigamente")... Um repertório completo de músicas que minha ignorância paulista não permite citar.

Chame todo mundo: os militares, os policiais federais, os moradores da região (tanto migrantes nordestinos quantos os índios das 23 etnias)... Claro, têm mulheres também... Muitas... com seus negros cabelos lisos... Algumas lindíssimas (são as que romperam com o sistema); outras, já cansadas... Mas todas excelentes dançarinas e com um sorriso cativante...

Basta agora dançar a noite toda... Se cansar, pede uma aguinha de coco.
domingo, 22 de novembro de 2009 0 comments

Reflexões diante da cerca...

Um menino diante de uma cerca, esta é a história do "O menino do pijama listrado", que virou livro e filme...

Aqui na Amazônia, sinto-me um pouco como o menino diante da cerca.

Converso bastante com a classe média daqui - sim, eu tenho paciência! -, é tão incrivel como eles aceitam que exista um abismo social étnico. Outro dia, no café da manhã, uma professora manauara- de universidade pública, pasmem! - me disse que achava certo que alguém tivesse um latifúndio do tamanho da Alemanha: "Se o cara comprou..." Tive ímpeto de Jabor de pular no pescoço dela... Mas lembrei-me da política da boa vizinhança que a mamãe católica dedicou-se tanto a me ensinar... O Jabor contra os taxistas-malufistas e, eu contra a classe média amazonense.

A mesma pessoa foi taxativa "Tenho preconceito SIM contra os índios..." Não é possível condená-la sozinha... É toda uma sociedade que não é capaz de enxergar o mundo em que vive. Como o menino que apesar de tantas aulas de história e geografia, nao sabia que estavam na Polônia. Parece que nossas escolas dedicam-se muito tempo explicando cada detalhe da Revolução Francesa, mas esquecem de contar aos nossos alunos que existem cerca de 180 línguas indígenas nesse país, que é preciso estabelecer políticas de desenvolvimento sustentável na Amazônia, que nao faz sentido construir estrada no meio da floresta, etc.

Meus colegas europeus têm mais consciência da diversidade linguística, cultural e biológica da Amazônia do que meus colegas manauara, que por ironia tem em seu etnonímo a marca -wara do Tupi.
terça-feira, 20 de outubro de 2009 1 comments

Basta vontade para realizar sonhos!

Em um bate-papo com a Profa. Assistente Adriana da UEA-SGC, contei para ela que os professores indígenas das comunidades do Negro, do Içana e do Xié tinham muita vontade de aprender a usar um computador... nem que fosse só a experiência de dar os primeiros clicks e construir textos e desenhos :)

A conversa virou realidade. 22 professores das etnias Baré, Baniwa, Werekena, Tariano, Dessano vieram ao centro urbano de SGC para realizar 10 horas do curso "Noções de Informática Básica utilizando textos em Nheengatu"...

Os alunos do curso de Tecnologia viraram professores... A FOIRN conseguiu gasolina e comida. A UEA também doou gasolina para trazer os alunos... E assim em poucos dias realizamos um sonho. Quem sabe ainda outros sonhos possam ser realizados?
domingo, 27 de setembro de 2009 0 comments

Domingo de turista em São Gabriel

Saímos da Casa dos Professores às oito e meia da manhã e subimos ao centro da cidade para o Café da manhã regional:

tapioquinha com queijo coalho e tucumã;
X-caboclinho (pão, queijo coalho, tucumã e banana frita);
bolo de milho;
bolo de macaxera;
suco de cupuaçu, taperebá, e tudo mais que a floresta proporcina :)

Logo depois, subimos o Morro da Boa Esperança... Cada estaçâo, milhares de fotos... A máquina fotográfica substituiu as orações. Fotografar também é uma forma de agradecer pelo esplendor da paisagem.

O almoço foi no CIMARNE, o clube do exército que abre aos domingos para os baderneiros civis.

E cá estou eu, bem turista na internet!
 
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