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quarta-feira, 13 de março de 2019 0 comments

Paródia

As armas e os barões assinalados
Que, da ocidental praia lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Mais do que prometia a força humana,
Para gente remota exterminar
                                                          (Camões, Os Lusíadas, parodiado)
segunda-feira, 23 de janeiro de 2017 0 comments

A professora e o médico: duas visões sobre as cotas

Tânia Rezende, professora da UFG, tem uma maneira muito gostosa (e didática) de tratar de assuntos sérios. Como uma fantástica professora, ela ensina por meio do diálogo e da provação. Admiradora que sou da Tânia, não poderia deixar de compartilhar esse texto sobre as cotas:


Em mais uma, das muitas em mais de um ano (o acompanhamento é de 3 em 3 meses) consulta ao neurologista...
Já é lugar-comum, depois dos lugares-comuns de todo médico:
Neuro: você faz o quê?
Eu: sou professora.
Neuro: de quê?
Eu: de Portuguêis...
Neuro: Onde?
Eu: na UFG.
Neuro: (rindo) agora, vou te perguntar uma coisa e você vai ficar brava...
Eu: (rindo, pensando com meus botões: lá vem encheção de saco com Enem, estava perto da publicação do resultado).
Neuro: ...o que você acha do Enem? Não,,, Seja sincera...
Eu: ah...?! ar...
Neuro: ...é injusto, o Enem é muito injusto, você não acha? Você não acha que depois do Enem as pessoas estão falando muito mais errado? Tá todo mundo falando muito errado, você acha, me diz, você não acha?
Eu: (eu poderia fazer um patrulhamento na fala dele para exemplificar como, de fato, está todo mundo falando errado, mas preferi responder diferente) desculpa, eu discordo do senhor, as pessoas não estão falando nem mais nem menos errado que antes; o que ocorre é que as pessoas que falam diferente do padrão normatizador do bem falar do português agora estão mais visíveis e isso tem a ver com ações afirmativas e não com Enem.

Texto de Tania Ferreira Rezende, compartilhado no Facebook. 
Conheça o blog do grupo Obiah
quinta-feira, 2 de agosto de 2012 1 comments

Será a música ruim um reflexo de um mundo apolítico?

Em texto controverso, Daniel Gorte-Dalmoro refuta a ideia de que a ciência ganharia se os cientistas não perdessem tempo em discussões políticas, manifestações, greves etc -- ideia vinculada quase como uma "verdade absoluta" entre a sociedade paulista (ou será brasileira?). O autor, com jeito bem de provocação, lembra que a faculdade mais "baderneira" da USP abriga seis - filosofia, sociologia, história, linguística, ciências políticas e geografia - dos nove cursos da universidade que estão entre os duzentos melhores  do mundo em suas respectivas áreas. A partir daí o autor defende que a ciência progride quando em diálogo com os problemas do mundo real, quando o cientista não se aliena atrás dos muros da universidade.

Um paralelo pode ser traçado em relação à música. O Brasil dos anos 1960 produziu Geraldo Vandré, Chico Buarque. Com seus versos, afastaram o CÁLICE. O Brasil dos anos 2010, por sua vez, não aceita contestação, parece sonhar em retomar a ditadura (haja vista a pesquisa sobre a nossa falta apreço pela democracia, aqui), sem falar dos comentários de leitores de jornais e de colegas nas redes sociais, que clamam por uma PM que "baixe o cacete" em estudantes. E tanto repúdio por política, parece ter repercussões na produção "semi"-musical do país: estamos condenados a sofrer com letrinhas de amor, que os Leandros e Leonardos espalham por aí.

12 de novembro de 2011.
sexta-feira, 2 de setembro de 2011 1 comments

A escola do silêncio II

Uma das coisas mais gostosas da escola é fazer amigos, conversar, falar baixinho enquanto o professor explica a lição. Quem nunca fez isso que atire a primeira pedra! E até na aula de inglês ou de francês ou de alemão, é sempre tão gostoso cochichar em português... (não consigo imaginar um aluno cochichando em outra língua). É na língua materna em que trocamos confidências, brincamos sobre o professor (quem nunca fez isso?)...

Mas em uma escola do Mato Grosso do Sul, alunos foram proibidos de cochichar em suas línguas maternas. Mais que isso, alunos que não sabiam ler tiveram de assinar um termo de compromisso de que não falariam suas próprias línguas na escola... Veja a reportagem no Terra.

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Em tempo, a Folha também registrou o ocorrido com um pouco mais de apuração (e muitos comentários!). Veja aqui.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010 0 comments

Domingo: jornal, lasanha e muita discussão

Domingo é dia de missa, lasanha, família reunida. “O papai vai comprar jornal”. Folha! Estadão! Diário do Grande ABC! Pela manhã, começa a discussão. “O Estadão é reacionário”, eu dizia... “A Folha é bagunçada”, dizia meu irmão. “É preciso saber das notícias da região”, ponderava meu pai.

A mamãe tentava em vão convencer a todos a ir à missa. Meu pai não tinha escolha. Nós três a convencíamos de que queríamos dormir. Depois da missa, o papai chegava com um dos três jornais, pão, leite e uma quantidade gigantesca de queijo para começar a preparar a lasanha... Mmmmmmmmmm...

Depois do almoço, ainda na mesa da cozinha, começavam as discussões sobre o conteúdo do jornal. Política era quase sempre o tópico. Os mais velhos lembravam o “milagre”, os mais jovens lembravam que pagamos a conta por muito e muito tempo. Um elogiava o hospital construído pelo Alckmim, o outro lembrava a situação calamitosa em que as escolas paulistas se encontram graças a tantos anos de tucanada. Um falava bem das estradas paulistas. Outro respondia, indignado, que os preços dos pedágios eram absurdos, mais caros que os preços europeus e que não havia transparência em quanto as empresas terceiras gastavam e quanto recebiam.
Meu pai se irritava com a idade altíssima em que o brasileiro se aposenta. Meu irmão ponderava que a previdência estava falida no mundo todo. Um lembrava o direito à educação, à saúde, ao saneamento básico, à reforma agrária – outro lembrava os custos dessas reformas.

Avaliávamos, ouvíamos uns aos outros, aprendíamos com liberdade – com “excesso de liberdade” nas palavras da mamãe. Na hora de votar, cada um seguia seus princípios, ideais, bolso, e até religião. Todos, nas suas mais diferentes escolhas, acreditavam (e acreditam) em um país melhor.
domingo, 8 de agosto de 2010 1 comments

Questões de língua e de meio ambiente - Aldo Rebelo e seu falso patriotismo

O deputado Aldo Rebelo se diz um grande defensor da "língua da pátria" - ironicamente, mais conhecida como língua portuguesa (os linguistas preferem falar em Português Brasileiro, mas isso é outra história). Para defendê-la, criou o projeto de lei 1676/99, que declarava lesivo ao patrimônio cultural brasileiro "todo e qualquer uso de palavra ou expressão em língua estrangeira" (art. 4º). Ao formular o projeto de lei, ignorou as manifestações dos linguistas, representados pela ABRALIN e pela ALAB, e da própria Academia Brasileira de Letras. Não entendeu o deputado que o domínio pleno de uma língua está na capacidade de expressão e compreensão nos seus registros orais e escritos e que os estrangeirismos são apenas vestígios dos contatos entre povos: almofada (Árabe), chocolate (Nahuatl, ou talvez de algum idioma Maia), igarapé (Tupinambá), sutiã (Francês), futebol (Inglês), etc.

O uso de textos, escritos ou falados, para expressar conhecimentos parece ser algo que Aldo ignora completamente. Aziz Ab’Saber enviou ao comitê do tal código florestal um dossiê explicando os tipos de ambiente do Brasil e a necessidade de preservá-los. Anos de pesquisa séria e comprometida com o meio ambiente, completamente ignoradas - para não dizer que devem ter parado na lata do lixo. Muitos outros pesquisadores batem na mesma tecla (uma pequena amostra pode ser encontrada aqui). Comunista de fachada, o deputado tende a se defender dizendo que se trata de criar mais espaços para produção de alimentos - Manuela Carneiro da Cunha o desmente: "Quem está limitando o acesso às terras a 'quem quer produzir' não são [...] os índios, os quilombolas, as unidades de conservação e a pequena propriedade rural, e sim a parte tecnologicamente mais atrasada e predatória da pecuária [que consegue a façanha de ter menos de um boi por hectare]" (confira aqui).

Aldo deveria saber que preservar uma língua não é uma guerra boba contra estrangeirismos. Trata-se de um conceito muito mais abrangente (e abstrato) de dar condições de vida e soberania aos falantes (coisa que o tal código desconhece); respeitar, divulgar e incentivar o conhecimento produzido na língua (e não ignorar seus cientistas); investir em educação de qualidade, e tudo mais que costumam chamar de "utopias".
 
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