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quarta-feira, 13 de março de 2019 0 comments

Paródia

As armas e os barões assinalados
Que, da ocidental praia lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Mais do que prometia a força humana,
Para gente remota exterminar
                                                          (Camões, Os Lusíadas, parodiado)
quinta-feira, 7 de dezembro de 2017 0 comments

A Descoberta

Capitu deu-me as costas, voltando-se para o espelhinho. Peguei-lhe dos cabelos, colhi-os todos e entrei a alisá-los com o pente, desde a testa até as últimas pontas, que lhe desciam à cintura. Em pé não dava jeito: não esquecestes que ela era um nadinha mais alta que eu, mas ainda que fosse da mesma altura. Pedi-lhe que se sentasse.
— Senta aqui, é melhor.
Sentou-se. Vamos ver o grande cabeleireiro, disse-me rindo. Continuei a alisar os cabelos, com muito cuidado, e dividi-os em duas porções iguais, para compor as duas tranças. Não as fiz logo, nem assim depressa, como podem supor os cabeleireiros de ofício, mas devagar, devagarinho, saboreando pelo tato aqueles fios grossos, que eram parte dela. ( continua aqui).

Suspiros... a menina de 11 anos, ela-mesmo-eu, se instala. O texto estava lá, perdido no meio do livro de quinta série. Um livro horroroso, capa branca de letras vermelhas, com o símbolo do SESI para todo lado, sem graça nenhuma... Mas capa não conta história e, lá dentro, perdido entre uma lição e outra, deparei-me com esse menino atrevido fazendo um penteado. Naquela época, não havia para mim nenhum Machado de Assis, nem Dom Casmurro, nem Bentinho... Apenas Capitu aparecia ali, tão-o-que-eu-queria-ser, ganhando o primeiro beijo. Nesse tempo, eu imaginava como era esse negócio de beijar - devia de ser bom, porque mamãe que sempre foi tão pacífica, ameaçava-me com uma chinelada só de pensar ...

Não sei quanto tempo se passou, um ano talvez, e lá na estante da sala, só para o meu irmão mais velho ler, estava Feliz Ano Velho. Eu queria tanto ler! Mas a mamãe fez terrorismo sobre ser um livro para o Flávio  - eu não estava pronta ainda! Ah! Essas mães que não batem, mas que sabe-se-lá-como despertam medo. Como sou muito corajosa, inventei para mim mesma que o livro era muito grosso. E como lógica não estava entre os meus fortes, estabeleci uma meta: leria o livro-mais-grande-da-estante e, se conseguisse, seria adulta o bastante para enfrentar Marcelo Rubens Paiva.

Vejam bem, a estante da sala não era nenhuma biblioteca dos sonhos. Dos sonhos, havia apenas a coleção de Monteiro Lobato. O restante do acervo havia sido composto à medida que os nossos professores iam pedindo. Meus pais, um projetista e uma auxiliar de enfermagem fantásticos, não tiveram a chance de ir para a universidade, mas sabiam que nós, as crianças, chegaríamos (e chegamos!). Pois bem, havia também uma enciclopédia, comprada pela mamãe no INAMPS (nada de livraria, enciclopédia se compra com caixeiro-viajante). Uns dez livros cor-de-burro-quando-foge, três livros amarelos de culinária, e três livros cinzas, com a palavra Clássicos grafada em prateado na lômbada. Não sei qual o critério, mas havia ali Schopenhauer, Erasmo de Roterdã e Machado. E não é que era bem o livro da Capitu!





sexta-feira, 13 de maio de 2011 7 comments

O livro chegou!

Clique para ver grande.

Amunhã komunidade irum kua papera Nheengatu nheenga resewara.

Teddy received the PhD dissertation!


Kue katu rete!!!
terça-feira, 27 de julho de 2010 1 comments

A Criança em Ruínas

Há cerca de dois anos, recebi da Amiga-Portuguesa o livro de poemas "A Criança em Ruínas" de José Luís Peixoto. O autor está sendo considerado uma das grandes revelações da literatura portuguesa. Confesso que não conhecia nem a fama, nem os livros - só os descobri há pouco, ao procurar informações para colocar neste blog (confira aqui). Foram os poemas que me cativaram.

"A Criança em ruínas" trata da sucessão de perdas, de desilusões que separam a infância da vida adulta. Se a infância é o tempo da alegria, da família - sua ruína é a morte do pai, da mãe e a distância em relação às irmãs. Só o amor é capaz de dar alento ao poeta, mas este descobre no "eu te amo" apenas um instrumento para o prazer. Morte e desilusão amorosa são portanto as duas esferas em que se consolida a ruína da criança - duas esferas bem marcadas na organização do livro com simples e claros I e II.

A parte I é marcada pelo tempo do poema:

"o poema é quando eu podia dormir até tarde nas férias
do verão e o sol entrava pela janela, o poema é onde eu
fui feliz e onde eu morri tanto, o poema é quando eu não
conhecia a palavra poema..."

Tempo em que havia domingo, bem definido em o silêncio solar das manhãs.


A parte II é dedicada ao amor, ou antes, ao desamor, à separação. A amada também remete à infância,

"de quando ficávamos juntos à porta da tua avó e para as pessoas que passavam
éramos namorados".

Fragmentados ao longo dos poemas estão o amor de criança, os sonhos de união, os primeiros toques, mas também as primeiras lágrimas, o entender a felicidade como silêncio:

"eu acordarei nos teus braços e não direi
nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar
a perfeição da felicidade"

Mas não estará neste silêncio, a razão de toda perda?

"na noite. olhávamos pela última vez e despedimo-nos sem sequer
nos conhecermos."


A Criança em Ruínas
José Luís Peixoto
Edições Quasi
ISBN 9789895521685



sexta-feira, 9 de julho de 2010 0 comments

Trinta anos sem Vinicius



As poesias do Vinicius podem ser encontrada na Brasiliana da USP. Infelizmente, eles não disponibilizaram as crônicas, menos conhecidas. Como não tenho os livros por aqui, me lembrei de crônicas que li no colégio, sobre os "tipos", com os quais nos deparamos ao ir ao cinema. A imagem do "chupador de caramelos" nunca saiu da minha cabeça. Ao procurar na internet, "Vinicius e cinema", acabei a encontrando aqui.
quinta-feira, 24 de junho de 2010 1 comments

Quantas Alagoas?

"Olhemos para este Haiti e para os outros mil Haitis que existem no mundo, não só para aqueles que praticamente estão sentados em cima de instáveis falhas tectónicas para as quais não se vê solução possível, mas também para os que vivem no fio da navalha da fome, da falta de assistência sanitária, da ausência de uma instrução pública satisfatória, onde os factores propícios ao desenvolvimento são praticamente nulos e os conflitos armados, as guerras entre etnias separadas por diferenças religiosas ou por rancores históricos cuja origem acabou por se perder da memória em muitos casos, mas que os interesses de agora se obstinam em alimentar", escreve Saramago em um dos seus últimos textos no blog.
Não só escreveu sobre, como também enviou para o Haiti uma jangada de pedra. Diferente do que fizeram os haitianos ricos, que abençoados por Deus, foram os menos afetados pela tragédia.

Os coronéis alagoanos também não devem ter sido muito afetados pelas águas dos rios Mundaú e Paraíba. E é fácil prever que não vão contribuir em nada para ajudar os desabrigados da enchente no estado. Ou talvez, eu esteja enganada - sempre há um coronel disposto a contribuir em troca de votos nas próximas eleições ou de uma rapariga formosa para ajudar nos afazeres domésticos.

Saramago não vai para o céu, dá a entender o jornal do Vaticano. Para o céu, só vão os mais ricos haitianos, os devotos coréneis nordestinos, os padres pedófilos, e, claro, Vossa Santidade o Papa Bento XVI.
domingo, 22 de novembro de 2009 0 comments

Reflexões diante da cerca...

Um menino diante de uma cerca, esta é a história do "O menino do pijama listrado", que virou livro e filme...

Aqui na Amazônia, sinto-me um pouco como o menino diante da cerca.

Converso bastante com a classe média daqui - sim, eu tenho paciência! -, é tão incrivel como eles aceitam que exista um abismo social étnico. Outro dia, no café da manhã, uma professora manauara- de universidade pública, pasmem! - me disse que achava certo que alguém tivesse um latifúndio do tamanho da Alemanha: "Se o cara comprou..." Tive ímpeto de Jabor de pular no pescoço dela... Mas lembrei-me da política da boa vizinhança que a mamãe católica dedicou-se tanto a me ensinar... O Jabor contra os taxistas-malufistas e, eu contra a classe média amazonense.

A mesma pessoa foi taxativa "Tenho preconceito SIM contra os índios..." Não é possível condená-la sozinha... É toda uma sociedade que não é capaz de enxergar o mundo em que vive. Como o menino que apesar de tantas aulas de história e geografia, nao sabia que estavam na Polônia. Parece que nossas escolas dedicam-se muito tempo explicando cada detalhe da Revolução Francesa, mas esquecem de contar aos nossos alunos que existem cerca de 180 línguas indígenas nesse país, que é preciso estabelecer políticas de desenvolvimento sustentável na Amazônia, que nao faz sentido construir estrada no meio da floresta, etc.

Meus colegas europeus têm mais consciência da diversidade linguística, cultural e biológica da Amazônia do que meus colegas manauara, que por ironia tem em seu etnonímo a marca -wara do Tupi.
quarta-feira, 5 de agosto de 2009 1 comments

Proto, o quê?

Quem viveu na América há 5 mil anos? Esses povos se conheciam? Da onde eles vieram? Como se espalharam pela América?

Perguntas de arqueológo não precisam ser respondidas com caveiras e utensílios de 5 mil anos... Mesmo porque na Amazônia essas coisas tendem a desaparecer sem deixar vestígios...

A história da América também pode ser conhecida por meio do estudo das línguas indígenas faladas hoje... Para tanto, os linguistas comparam listas de palavras de línguas indígenas e tentam encontrar semelhanças regulares e perceber que algumas línguas tiveram origem comum...

Na Europa, as semelhanças entre o Português, o Espanhol, o Francês, o Romeno e o Italiano permitem que a gente reconheça um grupo comum "línguas românicas", as línguas descendentes do Latim...

Na América do Sul, o Guarani, o Tupinambá, o Kamayurá, o Emerillon, o Wayampi, o Guajá, Chiriguano, o Ava-Canoeiro, o Tapirapé e outras fazem parte do grupo Tupi-Guarani (25 línguas aproximadamente), mas como não há documentos da época em que esses grupos estavam juntos, chamamos a língua que eles falavam de Proto-Tupi-Guarani.

Quer saber mais?

Rodrigues. Para o conhecimento das línguas indígenas brasileiras.
Museu do Indio.
Departamento de Linguistica mais perto de sua casa.
sexta-feira, 31 de julho de 2009 0 comments

A viagem do elefante


Imagine que no século XVI, o "quintal" da torre de Belém era habitada por alguém muito especial: o elefante Salomão e seu conarca Suhro (ou Solimão e Fritz, como foram conhecidos na Áustria). Para se livrar dos gastos com tamanho animal, o rei de Portugal decidiu dar de presente o elefante para o arqueduque da Áustria.


A viagem do elefante é apenas um pretexto para que Saramago crie um mundo cheio de personagens - reais e imaginários. O título e a capa infantis escondem com ironia as críticas à sociedade portuguesa - da época? ou de hoje? A viagem em si é uma grande gargalhada à hipocrisia dos governantes, capazes de receberem 'elefantes' como presentes :)


O elefante não vai sozinho, claro! Leva consigo Suhro, o conarca indiano "convertido" católico. Nas paradas para descanso, as conversas de Suhro com os colegas, com o arqueduque, com os padres e todos, mostra que o "bárbaro" estava bem longe de endender um mundo muito mais místico que o da Índia... Um mundo em que brincadeiras de elefante viram milagre...
sexta-feira, 12 de junho de 2009 0 comments

Meu Primeiro Saramago


A primeira vez que tentei ler um Saramago, comecei logo por Memorial do Convento - o livro predileto da Amiga-Portuguesa. Foi no tempo de cursinho e com toda a tensão daquele momento, confesso que não saí das primeiras páginas.


Anos depois, já na Faculdade de Letras, o Amigo-Linguista-de-Sinais me deu de presente O Conto da Ilha Desconhecida e avisou que se tratava de uma iniciação a Saramago.


O livro é curtinho, cheio de desenhos. O enredo é delicioso, construído em cima da ousadia de um homem que ordena ao rei: "Dá-me um barco!"
O livro conquistou a todos lá em casa: Mamãe, Irmão-Mais-Velho, Titia... E conquistou também os professores em formação de São Gabriel da Cachoeira, que o encenaram em forma de peça (foto acima).
 
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