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sexta-feira, 7 de outubro de 2016 0 comments

Se não somos militantes, que tenhamos alteridade

Em geral, tenho bastante preguiça de usar "Car@s colegas" ou "Caros e caras...", o texto de Tânia Rezende, me obriga a repensar minhas própeias práticas.


Se não somos militantes, que tenhamos alteridade

Em sessão do Supremo Tribunal Federal, no dia 10 de agosto, ocorreu o seguinte diálogo entre o presidente da Casa, ministro Ricardo Lewandowski, e a ministra Carmen Lúcia, recém-eleita à presidência do STF, a partir de setembro:
Concedo a palavra à ministra Cármen Lúcia, nossa presidenta eleita… ou presidente?
Eu fui estudante e eu sou amante da língua portuguesa. Acho que o cargo é de presidente, não é não?
É bom esclarecer desde logo, não é?
As escolhas linguísticas que fazemos revelam nossas ideologias e atitudes. Foi o que revelou a ministra Carmen Lúcia, ao responder ao presidente do STF, com uma justificativa sustentada na norma linguística (sou amante da língua portuguesa), o tradicional discurso de autoridade; subsidiada pela escola (Eu fui estudante), a agência de sustentação da norma; e legitimada pela nomeação (o cargo é de presidente), o poder da oficialidade. Com isso, a ministra mobilizou, em poucas palavras, poderosas agências de socialização de gênero, em defesa da manutenção da ideologia de gênero vigente na sociedade.
Não se trata, nesse caso, de “correção gramatical”, conforme sentenciam os gramáticos, rapidamente evocados pela mídia. Trata-se de preferência, como defende a mesma mídia. Mais que um fato linguístico, a marca de gênero em “presidenta”, atualmente, é o indicador de uma mudança social maior.  Mikhail Bakhtin, em Marxismo e Filosofia da Linguagem (2006), defende que a linguagem, por ser ideológica, é o termômetro mais sensível das mudanças sociais. O embate a que temos assistido entre “presidente” e “presidenta”, desde a eleição de Dilma Rousseff para a Presidência da República do Brasil, em 2010, é a representação linguística de uma transformação social contemporânea.
Por exemplo, há algum tempo, observo, em Goiânia, que alguns homens, para expressar agradecimento a uma mulher, dizem: obrigada. Ou seja, o gênero gramatical concorda com o gênero social da interlocutora. Ao cumprimentar meus amigos indígenas nas redes sociais, pelo aniversário deles, eles me agradecem, dizendo também obrigada.  
Algumas línguas indígenas fazem distinção entre a fala masculina e a fala feminina. Esse background linguístico pode estar orientando o uso do gênero centrado na interlocutora e não no locutor, quando esses indígenas falam em português. O fato de os goianos também marcarem o gênero gramatical do agradecimento, considerando o gênero social da interlocutora, aponta para a possibilidade de influências indígenas na cosmovisão e na epistemologia linguística goianas.
As explicações e as discussões sobre a língua são feitas na própria língua, fazendo com que “a cumplicidade ontológica entre as categorias linguísticas e as categorias sociais pareça natural” quando, na realidade, é construída e imposta. Ou seja, as práticas linguísticas seguem convenções, portanto, as tradições linguísticas são invenções discursivizadas, que podem ser (e são) desinventadas, da forma defendida por Cristine Severo (2016), em A invenção colonial das línguas da América, e muit@s goian@s já as estão reinventando no agradecimento.
Da mesma forma, no uso visibilizado do feminino, como em “bom dia a todas e a todos”, já bastante aceito; no emprego, na escrita, de “alunas e alunos” ou “os/as estudantes”, no lugar do falso genérico masculino “alunos”, “estudantes” para indicar masculino e feminino, invisibilizando ou, pior ainda, excluindo, as mulheres, não está em questão o pressuposto do certo/errado ou o que é ou não correto na língua, considerando o que diz a gramática normativa. Trata-se de uma escolha política de uma regra ideológica para dar existência e visibilidade às mulheres, na sociedade, pela linguagem.
Com relação ao emprego de símbolos, como ‘x’ ou ‘@’, o que está em questão é a ruptura epistemológica: rompe-se com a epistemologia maniqueísta de mundo, com a visão binária de gênero, e propõe-se uma concepção pluralista de gênero. Para além de feminino e masculino, propõe-se dar existência e visibilidade à pluralidade de gêneros existentes na sociedade. Trata-se de uma proposta mais inclusiva.    
Enfim, se não somos e nem queremos ser militantes, temos de reconhecer que as conquistas das mulheres são devedoras das lutas e atuações históricas das militantes. Por isso, se não usamos uma linguagem, sobretudo uma escrita, menos sexista, porque não somos/não queremos ser militantes, usemos, então, pelo menos, por alteridade.
*Tânia Rezende é professora da Faculdade de Letras da UFG

Original no Jornal da UFG

terça-feira, 13 de outubro de 2015 0 comments

A borboleta

Sabe aquele almoço de domingo? Casa dos pais, lasanha da mama? Ou polenta com frango de panela? Aquele almoço em que se senta no chão, o velho chão de madeira da casa de mamãe, e, junto com as crianças, tenta-se descobrir como funciona o briquedo novo... Até que a novidade perde a graça e se percebe o quão mais gostoso é brincar de "bobinho" ou de pega-pega. E assim se passa um domingo agradável junto às crianças.
Reprodução Facebook/ via O GLOBO

E chega a hora de sentar-se à mesa, devorar a lasanha e colocar o papo com os adultos em dia. E todo a magia e encantamento do momento com as crianças se desfaz:

- A tatuagem é o primeiro passo para as drogas. O sujeito que se propõe a uma coisa dessas está na realidade se auto-destruindo...

- Oi???? Vários dos meus amigos, excelentes professores universitários, têm tatuagens lindíssimas...

- Ah! Claro! Um bando de funcionários públicos que não conseguiriam emprego em outro lugar.
Reprodução Facebook / via O GLOBO
E então vem o silêncio .Não o silêncio dos que concordam, mas o silêncio daqueles que precisam fingir que não ouviram, daqueles que preferem não mais discutir...

O silêncio daqueles que precisam voar como a borboleta nas costas da paramédica. Ah... sim, a paramédica, tatuada (quel horreur!!!) que, vestida de noiva, socorreu os amigos na estrada (veja reportagem no jornal O GLOBO)


quinta-feira, 10 de setembro de 2015 1 comments

O papel do linguista na sociedade: a história de William Stokoe


No final do mês, participarei de um encontro sobre políticas linguísticas (cf. http://e-ipol.org/i-encontro-nacional-de-municipios-plurilingues-i-enmp/  ). Professora Tânia e eu apresentaremos um trabalho a respeito da Documentação linguística em políticas de formação intercultural de docentes indígenas em que defenderemos que a documentação linguística, embasada em análises descritivas, constitui importante ação de fortalecimento das línguas e dos povos minorizados.

Um caso bastante claro e famoso de contribuição da Linguística para fortalecimento de políticas públicas é representado pelo linguista americano Willam C. Stokoe, pioneiro nos estudos a respeito da línguas de sinais.

Antes dos trabalhos de Stokoe, a língua usada pelos surdos americanos era considerada um "código visual corrompido para o Inglês falado" ou, no máximo, uma “pantonímia elaborada”. Stokoe demonstrou que a ASL (a língua de sinais americana) era, na verdade, uma língua humana complexa assim como o Inglês ou o Português (cf. http://gupress.gallaudet.edu/stokoe.html). Vários estudos descritivos, em Fonologia, Morfologia e Sintaxe, corroboraram a tese de Stokoe. A partir desses estudos linguísticos, as línguas de sinais começaram a ser cada vez mais respeitadas. Educadores e fonoaudiólogos – que sempre insistiram em um ensino oralista – tiveram de reconhecer a importância das línguas de sinais. O surdo tornava-se livre para se comunicar em sua própria língua.

A relação entre linguística e lutas pelos surdos é tão clara que muitos dos nomes que se destacam nos movimentos políticos são linguistas. Basta citar a dedicação aos estudos linguísticos de pessoas muito respeitadas (e admiradas!), como Ronice Quadros Muller, Sandra Patrícia Nascimento, Shirley Vilhalva, Ana Regina Campello. Muitas dessas guerreiras começaram na Pedagogia, mas precisaram do suporte da linguística para fortalecer sua luta.

domingo, 11 de março de 2012 1 comments

Diálogos

Vovó: Onde eu estou?
Cuidadora: Mmmm... deixa eu pensar... no Japão.
Vovó: Ai que bom, sempre quis paquerar um japonês.




Nora: Onde a senhora quer ir hoje?
Vovó: Pro céu.
Nora: O que a senhora quer fazer lá no céu?
Vovó: Um cafezinho pro São Pedro.




Hoje me perdoo muito mais, me exijo muito menos.
 Só sei te dizer que a vida simplificou
(Drica Moraes, na Folha)
domingo, 8 de janeiro de 2012 2 comments

Celina, a amiga e a professora


Minha primeira professora de Nheengatú, Profa. Celina, morava em uma casinha de madeira em uma rua do centro de São Gabriel. Vez ou outra, eu passava por lá, sentava, observava ela corrigir as provas (e, às vezes, a ajudava a corrigir), tomávamos um suco gostoso de araçá e conversávamos por horas. Conversávamos sobre as aulas de Nheengatú, sobre o pai dela, sobre quando a pequena nasceu, sobre os últimos acontecimentos em Gabriel... Sempre preocupada com os filhos, com os netos, com os alunos, com o marido e com a vida difícil que levava. Toda a preocupação não lhe tirava o sorriso...

Também trabalhamos muito - o que aliás também era sinônimo de diversão: rimos muito, transcrevendo um mito baniwa; discutimos política, transcrevendo depoimentos de lideranças. Na última vez que estive em São Gabriel, Celina estava trabalhando em período integral e, por isso, não tinha como trabalhar nas transcrições. Generosa, me apresentou a Profa. Marlene, outra figura fantástica do universo gabrielense. Com Profa. Marlene, transcrevi boa parte dos textos usados na gramática do Nheengaú. Quando as duas se juntavam, riam de mim que só. 

Lembro-me que uma vez encontrei Celina em uma festa junina na praia. Ela estava tão bonita com uma blusa preta, radiante ao lado do marido. Ele contava histórias e ela ria, ria... Não há como falar de Profa. Celina sem lembrar ser contagiada por seu sorriso. 


quinta-feira, 10 de novembro de 2011 0 comments

O adeus de Alice

A vovó está no hospital há dois meses. Um acidente daqueles que envolvem caminhos do nosso cérebro, a paralizou. Nesses dois meses, não tive tempo (e de certa forma nem vontade) de escrever nesse espaço. Foi um tempo de aprendizagem, de conhecer melhor meus tios e minha mãe. Também foi um tempo de conhecer auxiliares de enfermagem e alguns pacientes - suas famílias, seus cuidadores.
Nas útimas semanas, conheci Dona Alice. Conheci? Conheci seus familiares, conheci as pessoas que a amavam. Ouvi sobre sua bondade, sua dedicação à família. Uma mulher guerreira, que vivia para os netos e que sofreu muito ao perder duas netas em acidentes de carro. Passei duas semanas próximas à Dona Alice, sem jamais ouvir sua voz. Nossa comunicação se dava apenas pelo olhar. Uma vez, segurei sua mão e disse que ouvira dizer que ela rezava muito, que era uma excelente avó e que cozinhava como ninguém. Seus olhinhos enxeram de água; e os meus, também.
Sempre soube que era questão de dias para que Dona Alice partisse. Ouvi médicos e familiares discutindo. Os primeiros queriam dar a ela uma morte sem mais cortes, sem quimioterapia. Os segundos queriam todos os recursos - esperavam assim um milagre. Duas perspectivas igualmente difíceis. Ao cabo de duas semanas, acompanhada de sua fiel amiga dos últimos dezoito anos, Dona Alice partiu.
sexta-feira, 9 de julho de 2010 0 comments

Trinta anos sem Vinicius



As poesias do Vinicius podem ser encontrada na Brasiliana da USP. Infelizmente, eles não disponibilizaram as crônicas, menos conhecidas. Como não tenho os livros por aqui, me lembrei de crônicas que li no colégio, sobre os "tipos", com os quais nos deparamos ao ir ao cinema. A imagem do "chupador de caramelos" nunca saiu da minha cabeça. Ao procurar na internet, "Vinicius e cinema", acabei a encontrando aqui.
quinta-feira, 24 de junho de 2010 1 comments

Quantas Alagoas?

"Olhemos para este Haiti e para os outros mil Haitis que existem no mundo, não só para aqueles que praticamente estão sentados em cima de instáveis falhas tectónicas para as quais não se vê solução possível, mas também para os que vivem no fio da navalha da fome, da falta de assistência sanitária, da ausência de uma instrução pública satisfatória, onde os factores propícios ao desenvolvimento são praticamente nulos e os conflitos armados, as guerras entre etnias separadas por diferenças religiosas ou por rancores históricos cuja origem acabou por se perder da memória em muitos casos, mas que os interesses de agora se obstinam em alimentar", escreve Saramago em um dos seus últimos textos no blog.
Não só escreveu sobre, como também enviou para o Haiti uma jangada de pedra. Diferente do que fizeram os haitianos ricos, que abençoados por Deus, foram os menos afetados pela tragédia.

Os coronéis alagoanos também não devem ter sido muito afetados pelas águas dos rios Mundaú e Paraíba. E é fácil prever que não vão contribuir em nada para ajudar os desabrigados da enchente no estado. Ou talvez, eu esteja enganada - sempre há um coronel disposto a contribuir em troca de votos nas próximas eleições ou de uma rapariga formosa para ajudar nos afazeres domésticos.

Saramago não vai para o céu, dá a entender o jornal do Vaticano. Para o céu, só vão os mais ricos haitianos, os devotos coréneis nordestinos, os padres pedófilos, e, claro, Vossa Santidade o Papa Bento XVI.
domingo, 9 de maio de 2010 2 comments

A vovó

De algum lugar no norte de Minas Gerais - uma Minas Gerais, com cara de sertão, longe, muito longe das riquezas que deram o nome ao estado - nasceu a vovó. Da infância, pouco sabemos. Sabe-se que vinha de família humilde, que a casa era de pau-à-pique (onde habitava também o barbeiro, cujo ferrão deixou-lhe marcada para vida toda). Da onde vinha a família? Permanece o mistério bem brasileiro - talvez africanos, talvez portugueses, e a vovó lembra sempre de "uma avó que o avô foi buscar no mato".

Em Minas conheceu o vovô
Em Minas nasceu o primeiro filho.
E ali começou a viagem...
Primeira parada, Regente Feijó, nasceu o papai.
Mais adiante, Pirapozinho, nasceu a titia.
Cinco anos mais tarde, a família já estava em Santo André, onde nasceu a caçula.

O menino mais velho e a menina mais velha eram muuuuuito especiais, por isso a vida da vovó passou a ser dedicada a cuidar deles. A filha caçula a ajuda nessa missão. E o "folgado do meu pai" lhe presentou com os netos e com a nora que ela adora - não estou sendo irônica, a vovó se dá super bem com a mamãe.

Falar da vovó é falar da família. Mas também é falar de uma cultura enoooorme. Cultura que não adquiriu nos livros - indecifráveis para ela. Mas cultura de mulher brasileira. A vovó não se importa em entrar em um terreno baldio para coletar uma planta (que só ela é capaz de identificar) e dali criar um remédio. Os mais importantes planta em vasos no quintal, onde também estão flores lindíssimas - daquelas que só brotam na casa da vovó - e as cachorrinhas vira-lata que ela e a tia vivem adotando.

E já que estamos na hora do almoço, que saudades da comidinha simples da vovó. Frango de panela, o feijão mais gostoso do mundo, Mmmmmmmmmmmm....

FELIZ DIA DAS MÃES!!!!!!!!!!!!




Vovó, meu irmão mais velho, e o netinho (meu sobrinho - que saudades!!!)


Vovó, eu (eu sei, a foto está bem louca), titio e titia
sexta-feira, 12 de março de 2010 1 comments

Em homenagem ao Glauco (1957 - 2010)

Apenas deixo um link para o Zé Malária , uma crítica comédia aos paulistas que não conhecem a floresta (e principalmente, àqueles que como eu, inventam de pesquisá-la).

O Zé Malária e o Glauco não sabiam, mas a floresta é bem menos perigosa que a metropóle paulistana.
domingo, 28 de fevereiro de 2010 0 comments

Uma guerreira no estudo do Sateré

Há cerca de seis ou sete anos, uma jovem amazonense formada na UFAM se propôs a estudar uma língua indígena de sua terra. Com o apoio do Prof. Stefanni, a garota escreveu um projeto e enviou para universidades públicas do norte. Apenas por desencargo de consciência enviou também para a UNICAMP.

Por ironia, as universidades do norte não estavam interessadas nessas tais de línguas da terra. E foi a conceituadíssima UNICAMP que aceitou a jovem. A garota vendeu um fusca velho e foi em busca de um sonho. O marido a apoiou na decisão e a filhinha foi junto.

Muito estudo, rendeu-lhe uma análise fonológica e agora a Doutora Raynice descreveu a morfologia e a sintaxe dos Sateré. Na platéia, estavam o marido e as crianças, claro. O melhor de tudo é que ela agora é professora da UFAM e poderá orientar outras 'raynices, frantomés, ana carlas' amazônicas a estudar as línguas de suas terras.
 
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