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terça-feira, 26 de setembro de 2017 0 comments

O regresso



Muitos e muitos anos atrás, Ulysses partiu e levou vinte anos para retornar à  casa em que Penélope lhe aguardava... Vinte anos lutando as mais duras batalhas, vinte anos vendo a morte, lidando com decepção e ódio. Na história grega, o retorno é celebrado, é festivo. Mas o que de fato acontece após vinte anos vivendo os horrores de uma guerra? Vinte anos depois de conviver com a morte, ou com a loucura, ou com a tristeza?

Há um conto japonês que trata exatamente de um homem que regressa da guerra, regressa de conhecer o pior lado da humanidade. Ao chegar, sua esposa o recebe com festa, alegria, boa comida, e com toda exuberância da mulher que, apesar do passar dos anos, se manteve bela e tão apaixonada (ou mais!) quanto a menina de dezesseis anos.

O primeiro encontro é celebrado junto ao mar. No momento exato em que se veem depois de vinte anos, os olhos voltam a brilhar, o coração palpita, é impossível manter a seriedade que se espera de duas almas que, após vinte anos, deveriam se comportar como amigos que não se veem há tanto tempo. Junto ao mar, longe de todas as guerras, longe da realidade, a única coisa que importa é curtir aquele momento, eternizá-lo. E cada toque lembra uma intimidade que nunca foi possível com nenhum dos amores que o sucederam.

Ainda que mágico, ainda que revelador de uma sintonia incrível, era apenas um final de semana. Nos dias que se sucederam, o homem decide retornar à guerra. Talvez por culpa, medo, fuga, não importa... Durante algum tempo, a mulher continua a enviar cartas, tenta dizer para si mesma que o amor é construído de paciência, persistência, permanência, paixão e perdão. A cada carta, porém, a ferida reabre... Então, para continuar vencendo as batalhas de cada dia, as batalhas que têm vencido sozinha nos últimos vinte anos, a mulher, ainda que dolorosamente, decide diminuir a frequência das cartas, até que se silencia. Não porque deixou de se importar, mas porque foi percebendo que era uma questão de sobrevivência.



domingo, 23 de julho de 2017 0 comments

A mensagem do templo budista


Todas as vezes que estive em Amsterdam - e foram muitas! - encontrei o templo budista fechado. Não que o templo estivesse sempre fechado, eu é que costumo passar pelo bairro chinês apenas à noite. Hoje foi diferente. Hoje, justamente hoje, em que todas as bençãos do universo são necessárias para que amanhã seja um dia de paz. E olha a mensagem que recebi dos deuses daquela antiga civilização:



Espero que amanhã eu consiga trazer meu espírito em paz, "with no anger", e assim, consiga selar a paz. A  paz que tem esse poder mágico de preservar tudo que houve de belo, e dar sentido às lutas e temores do passado. Enfim que amanhã seja um dia de paz.





segunda-feira, 12 de junho de 2017 0 comments

De volta às águas

O mar enrola na areia
Ninguém sabe o que ele diz
Bate na areia e desmaia
Porque se sente feliz

O mar também é casado
O mar também é feliz
É casado com areia
Seus filhos são os peixinhos...



Na última sexta-feira, voltei a nadar. Estava frio. Ainda que eu esteja no meio do Planalto Central, a piscina foi cuidadosamente projetada na sombra dos prédios, de modo que recebe sol apenas à tarde. Mas era preciso voltar às águas, voltar ao único lugar em que eu consigo respirar sem essa dor na garganta, que já dura um mês.

Filha de manezinha da ilha, minha vida sempre se passou perto das águas. Ainda que só pudéssemos viajar para Floripa nas férias, nasci em uma cidade bastante húmida. Meus pais gastam uma fortuna com mil estratégias para combater a humidade que provém do solo e das paredes do quarto do fundo. Sim, o quarto dos meus irmãos mais parece uma fonte do que um quarto propriamente dito. E qualquer tarde livre, sempre foi motivo suficiente para ir ao clube, ou, viajar uma horinha para a casa da vovó de Santos.

Mamãe conta que desde bebê, eu não podia ver uma poça d'água que já queria tirar a roupa para entrar:  [bebɛ, bebɛ], eu dizia. Certa vez, estávamos acampando na Praia do Santinho, e a pequena Aline, com apenas um ano e sete meses, levantou e correu ao mar. A sorte é que meus pequenos pezinhos não conseguiram alcançá-lo, antes que minha ausência fosse notada.

Na água, eu era tão forte quanto meus irmãos e primos. Cinco meninos, e a pequena (e descordenada) Aline. E como era gostoso estar entre eles. Passávamos tardes inteiras no mar. Nas águas, eu podia pular dos ombros do meu irmão mais velho, dar cambalhota, e até plantar bananeira. Depois, ficamos mais independentes, e então, desafiávamos o mar. O lance era ficar de joelhos, na água, de costas para mar, e só levantar no exato momento em que a onda chegava. E, claro, nem sempre dava tempo, e eu era jogada longe, rodando como um pião no meio da onda.

Na água, éramos também caçadores de marisco e berbigão. Lembro-me da Praia do Sonho, em que era possível recolher os pequenos seres - que eu adooooooooooooooro!!!! Um de nós ficava à espreita, observando quando viria a onda, enquanto os demais recolhiam as conchinhas em um balde. No final do dia, levamos nossa caça para mamãe cozinhar com apenas umas gotinhas de limão. A melhor refeição do mundo! a refeição que nós mesmos caçamos, tal qual as crianças Werekena que levam para suas mães as aves que abatem...

Ah... A aldeia... O Rio Negro, o Rio Xié, o Rio Içana, o Rio Waupés, o Igapé Anamoim. Por mais longe que eu tenha ido, por mais que os dias pudessem ser difíceis ou cansativos, sempre havia o rio. E em cada momento que eu me sentia arrebatada pela vida, era possível retornar às águas, e das águas retomar a vida... Um pouco como nado borboleta, em que vamos ao fundo dos mares e, quando não é possível mais continuar, regressamos com toda força, jogando água para todos os lados, atingido aqueles que merecem, e também  os que pretendiam ficar quietos...

domingo, 2 de agosto de 2015 0 comments

Santa Dica está viva!!!


"é uma prova, na história de Goiás, que a opressão social pode ser combatida com a força do imaginário. Nenhuma arma é capaz de destruir um sonho libertador"

(Marcio V. Nunes, diretor do documentário Santa Dica, abril de 2005)


Em julho conheci Lagolândia, a terra da Santa Dica, uma mulher de pulso forte que teria comandado legiões, instituído o sistema de uso comum do solo e abolido o uso do dinheiro. Uma versão feminina (e feminista!) de Canudos em meio a Goiás. (Veja aqui a história). 
O trabalho duro, mas poético, do cotidiano de Lagolândia.

Com as amigas, na casa de Santa Dica.


Esse espírito de luta, essa consciência de que a opressão social deve ser combatida com ternura, deve ter inspirado a formação da Licenciatura em Educação Intercultural, na qual tenho o prazer de participar.


Profa. Miracema Krikati, formada na Licenciatura Intercultural da UFG, atua como professora convidada para turma de 2011. Com a participação da pequena Mirella.




sábado, 16 de junho de 2012 0 comments

Das delícias de Goiânia!



               Eu sempre fui fã de empadinha em festa de aniversário ou mesmo na cantina da escola. Diante de coxinhas, risoles e outras frituras, a empadinha sempre pareceu uma boa opção assada. Opção hipócrita, porém, já que as empadinhas paulistas são extremamente gordurosas - parecem que são feitas com banha.
              Em Goiânia, o problema da comidinha rápida, gostosa e saudável foi resolvido: as empadas daqui são deliciosas! A massa é levinha, fininha e parece não conter gordura. E os sabores mais variados: as clássicas, palmito, frango; as caríssimas, camarão, bacalhau, queijo com tomate seco; e mais uma infinidade de sabores. Na foto, empadinha de uma loja de empadas em frente ao novo prédio da Receita Federal. A empadinha custa 3 reais e o empadão, 10 reais. A saladinha, eu que fiz para acompanhar.
domingo, 4 de março de 2012 0 comments

(A)traídos pelo vulcão

Há cerca de dez anos, fiz minha primeira viagem ao Chile. Destino: os grandes lagos e os vulcões de Pucón, além, é claro, de uma passadinha por Santiago. Embora as pessoas costumem fazer esse tipo de viagem no verão, decidimos viajar em julho para aproveitar o inverno.

Ao ver o Aconcagua ainda do avião, desejei ser mais forte, mais aventureira para poder caminhar até o topo. Um daqueles sonhos que é melhor não realizar, né? O meu passeio era bem mais modesto: caminhamos pelas ruas e parques de Santiago. Um senhor varria as folhas que insistiam em cair das árvores do parque. E jovens vendiam na rua poesias para pagar a faculdade e protestar contra o poder disfarçado do exército. Nas livrarias, gramáticas, dicionários e outros livros sobre língua e cultura Mapuche. Nas feiras, artesanato. Uma cultura combativa, apesar da repressão.

E então pegamos um trem para Temuco. Queria ver a noite chilena, mas um funcionário metido a general de Pinochet simplesmente fechou todas a cortinas: sem discussão! que fique bem entendido. De Temuco, seguimos para Pucón, onde alugamos um chalé de madeira. Primeira lição, jamais aprendida: como manter funcionando durante a noite o aquecedor à lenha? Mas quem se importa com o frio, quando há tremores à noite. "Ah... Isso que é um terremoto... Tranquilo" - lembro-me de dizer ainda sonolenta. No dia seguinte, o estrago que o terremoto tinha feito em uma plataforma no lago me deixou mais assustada.

Chovia muito em Pucón. Os dias pequenininhos, a chuva, bons vinhos. Ah... E o Chez Patto, na rua principal: um pãozinho quentinho da lareira, com um molho apimentado. Delicioso! Após três dias, a chuva deu uma trégua e pudemos seguir para o vulcão.

A vegetação vai se tornando escassa, o cinza das pedras vulcânicas invade a paisagem até que tudo é coberto pelo gelo. Pouco à frente, os restos de um elevador para esqui: a estação havia sido desativada na última erupção do vulcão, contou o guia. Um pequeno treinamento, indicava como usar as ferramentas para caso de queda no gelo. Preferencialmente, não cair, afinal com o nervosismo de uma queda, dificilmente um escalador de primeira viagem lembraria da lição.

A caminhada em zigue-zague era extremamente cansativa. Apenas algumas pedras para apoiar. A vista dos dois outros vulcões valia o esforço. Em certo ponto, o guia percebeu que eu não poderia mais continuar. Estava exausta. O grupo seguiu um pouco à frente e eu fiquei sentadinha esperando que eles retornassem. O silêncio, o céu azul, o gelo da montanha, os dois vulcões à frente. A câmera era incapaz de captar o que os olhos viam. E o silêncio, a sensão de morte, de paz. Até que o silêncio foi quebrado por um condor (?). Lindo, enorme, imponente, desprovido de qualquer medo, como se eu fosse apenas mais uma rocha em meio ao branco da montanha.

Não sei quanto tempo se passou até que voltaram. Não foram até o topo do vulcão, porque eu não poderia voltar sozinha, mas creio que demoraram. Não consegui me levantar, as pernas simplesmente não reagiam. O guia me ajudou a levantar e, apoiada nele, desci. 

Até ontem,  pouco refleti sobre os ricos que assumi ao viajar para o vulcão. Simplesmente, vulcões me atraem: a beleza das fotos da Islândia, o silêncio do Villarica. Ontem, um brasileiro chamado Felipe foi encontrado no Villarica. Como ele, muitos outros partiram. Estima-se que entre 1980 e 2002, 34.000 pessoas morreram observando a cratera de algum vulcão - apenas 23 eram cientistas; os demais, turistas (cf. Volcano online). Eu nunca cheguei a ver a cratera . Provavelmente, jamais a verei. Mas continuo irremediavelmente atraída pela beleza dos vulcões.



domingo, 12 de fevereiro de 2012 1 comments

De volta à ilha


Nos anos que estive na Holanda, voltei para o Brasil várias vezes: São Gabriel, para o trabalho; São Bernardo, para a família; Sampa, para os amigos; e Praia Grande, para a vovó. Cinco anos sem pisar em Floripa. Nunca na minha vida, tinha passado tanto tempo sem voltar para a  ilha em que mamãe nasceu.
A primeira vez que fui à ilha tinha dois aninhos. Meus pais decidiram acampar na Praia do Santinho - bons anos em que não havia o resort  e poucos turistas se aventuravam pelo paraíso. Todas as manhãs, eu acordava e corria para o "bebé" - era assim que eu me referia à água. Foi a única vez que acampamos. Nos anos seguintes, mamãe decidiu que ficaríamos na casa de sua irmã em São José, uma cidadezinha mais simples, já fora da ilha.
Não pense que a diversão era menor. Papai levava todo mundo para a praia: os meus três primos (a caçula ainda não tinha chegado) e meus irmãos. Eram cinco guris e euzinha :) Nem preciso dizer que cresci bem muleca. Bastava o meu irmão mais velho dizer "Toma cuidado" ou "Fica com a mamãe" para que eu fosse a primeira a subir nas pedras, descobrir cavernas, pular ondas, rolar nas dunas.
 Como titia morava próximo à BR101, aproveitávamos para conhecer outros cantinhos de Santa Catarina: Itapema, Camboriú, Palmas, Bombas e Bombinhas, Laguna, Garopaba, Gravatal, Ibiraquera. E nos dias nublados, aproveitávamos para passear em Blumenau ou visitar as primas da mamãe, no Saco Grande e em Ratones.
Às vezes, meu pai é criticado por ter gasto muito dinheiro em viagens. Dizem que poderíamos ter tido uma casa mais bonita, com movéis mais finos ou mais dinheiro no banco. É verdade... poderíamos. Mas acho que papai tomou a decisão certa: nos ensinou a dividir com os primos, nos inspirou a sermos pequenos descobridores, a valorizar o pôr do sol, a água cristalina... É esta a maior herança que meus pais poderiam ter me dado.
domingo, 8 de janeiro de 2012 2 comments

Celina, a amiga e a professora


Minha primeira professora de Nheengatú, Profa. Celina, morava em uma casinha de madeira em uma rua do centro de São Gabriel. Vez ou outra, eu passava por lá, sentava, observava ela corrigir as provas (e, às vezes, a ajudava a corrigir), tomávamos um suco gostoso de araçá e conversávamos por horas. Conversávamos sobre as aulas de Nheengatú, sobre o pai dela, sobre quando a pequena nasceu, sobre os últimos acontecimentos em Gabriel... Sempre preocupada com os filhos, com os netos, com os alunos, com o marido e com a vida difícil que levava. Toda a preocupação não lhe tirava o sorriso...

Também trabalhamos muito - o que aliás também era sinônimo de diversão: rimos muito, transcrevendo um mito baniwa; discutimos política, transcrevendo depoimentos de lideranças. Na última vez que estive em São Gabriel, Celina estava trabalhando em período integral e, por isso, não tinha como trabalhar nas transcrições. Generosa, me apresentou a Profa. Marlene, outra figura fantástica do universo gabrielense. Com Profa. Marlene, transcrevi boa parte dos textos usados na gramática do Nheengaú. Quando as duas se juntavam, riam de mim que só. 

Lembro-me que uma vez encontrei Celina em uma festa junina na praia. Ela estava tão bonita com uma blusa preta, radiante ao lado do marido. Ele contava histórias e ela ria, ria... Não há como falar de Profa. Celina sem lembrar ser contagiada por seu sorriso. 


domingo, 22 de maio de 2011 1 comments

De onde vem a coragem

                       Torres del Paine 2004. Primeiro dia de caminhada


Segundo dia de caminhada, Patagônia, 2004. Subindo para as geleiras. Não cheguei :(


Terceiro dia de caminhada

Em algum trecho do caminho

Mais fotinhos, clique aqui. Mas já aviso, não tinha uma boa câmera.    
Mmm, boa desculpa para voltar para  a Patagônia, vamos?

terça-feira, 15 de março de 2011 0 comments

Muros de Coimbra III

domingo, 6 de junho de 2010 5 comments

Duas aldeias

Os habitantes de Thurdorf no norte da Suiça e Nova Vida no Rio Negro (norte do Brasil) com certeza nunca ouviram falar um dos outros. Os suiços têm uma noção tão vaga de Amazônia, quanto os barés têm uma noção vaga de Europa. Exceto, talvez, pelos jovens que sonham em conhecer o mundo oposto.

Oposto? Em uma viagem curtinha, descobri mais semelhanças do que poderia supor a princípio.

A escola é o ponto de maior semelhança. Os professores de Thurdorf e os de Nova Vida têm como desafio ensinar crianças de várias idades na mesma sala - o chamado 'ensino multiseriado'. Em aldeias, o número de alunos é muito pequeno para que os governos suiço e brasileiro disponibilizem um professor para cada série - a solução nos dois países foi juntar em uma mesma sala crianças de séries diferentes. Para os governos é uma economia e tanto; para os professores, um desafio de criatividade e competência.

Os mesmos professores também têm de lidar com o bilinguismo. Na Suiça, as crianças aprendem em casa um dos dialetos de "suiço alemão", que varia de "cantão" (ou estado) para "cantão". Não há, no entanto, material didático para ensinar em "suiço alemão". Além disso, todo suiço deve aprender também o "alemão padrão". Em Nova Vida, como em todas as aldeias indígenas, o desafio é alfabetizar na língua materna (apesar da ausência de material didático) e ao mesmo tempo introduzir o Português (para o qual há material didático, mas que trata de uma realidade completamente alheia ao universo indígena).

Para lidar com o mundo em que vivem, os professores de Thurdorf e de Nova Vida incentivam atividades na floresta. Sim, em Thurdorf há ainda um pedaço da floresta negra. Os alunos devem conhecer os tipos de plantas, os instrumentos utilizados no trabalho agrícola tradicional, etc. Em Nova Vida, esse tipo de ensino está começando, chama-se de "escola indígena diferenciada". Os professores incentivam a pesquisa com os idosos sobre os tipos e usos das plantas da região, as atividades artesanais tradicionais, etc. Nas duas "aldeias", os professores estão aprendendo a ensinar para preparar o cidadão para viver bem na comunidade em que vivem - e só depois, consciente de sua identidade linguistico-cultural, conhecer outros mundos.



Alunos da comunidade de Nova Vida, preparando festa.


Thurdorf vista de uma torre no meio da floresta negra.
terça-feira, 6 de abril de 2010 2 comments

O Rio Xié


O Rio Xié não está no Google Maps, mas existe :) No Google, dá para ver apenas uma frestra na terra em paralelo ao Rio Içana.

Habitado por 966 pessoas (segundo o relatório do distrito de saúde de 2008), o rio Xié é território dos Werekena. Trata-se de um rio de muito difícil navegação, porque há corredeiras - ou "cachoeiras" como dizem no dialeto gabrielense - que impedem a passagem de barcos (até mesmo de canoas, como se pode ver na foto).

A separação entre o sul e o norte do Rio Xié não é apenas detalhe do relevo, traduz-se também nos hábitos e na língua. E, segundo Aikhenvald (1998), até o dialeto do Werekena ainda falado no sul do Rio Xié difere dos dados coletados sobre o dialeto de Anamuim (a comunidade na fronteira norte do Xié).

Quanto aos hábitos, observa-se a diferença em como norte e sul se colocam em relação às religiões "estrangeiras". Ao sul do Rio Xié, prevalece o protestantismo, enquanto ao norte, o catolicismo. Na Europa, as brigas entre essas religiões já deixaram de ser relevantes há mais de duzentos anos. No Xié, no entanto, temos a impressão de que estamos à beira da Noite de São Bartolomeu - com o exagero próprio dos blogs, claro!

Enquanto os Werekana discutem, perdem a possibilidade de criar movimentos fortes para defender sua terra, sua cultura, sua língua. A FOIRN está dando apoio para que o norte e o sul se entendam.

Acredito que uma das formas de reestabelecer o diálogo e o orgulho de ser Werekena é a partir de projetos de revitalização da língua Werekena. Já em 1903, Nimuendajú registrou que a maioria dos Werekena era bilíngue em Nheengatú e Werekena (Christino 2007). Hoje, passados mais de cem anos, há apenas 20 falantes idosos e, possivelmente, cerca de 100 adultos a compreendem. Resgatar uma língua é resgatar um povo e sua cultura.

Quer saber mais:Marcio Meira. O tempo dos patrões.
domingo, 7 de março de 2010 0 comments

A casa de Anne

A Kelli me perguntou a minha opinião sobre a Casa de Anne Frank em Amsterdam. Para quem não sabe, Anne Frank foi uma garotinha judia que, durante a guerra teve de se esconder nos fundos de uma casa em Amsterdam.

Escondida atrás de uma estante de livros, Anne escreveu um diário, em que conta o horror da guerra, o medo de serem encontrados pelos nazistas, o silêncio obrigatório. Enfim, um livro que todo adolescente deve ler.

A casa converteu-se em um museu que atrái turistas do mundo todo. Leitores, curiosos... Esse excesso de turistas me incomoda. Não é possível sentir o silêncio, o vazio, o que foi a guerra e a vida de Anne Frank.

Incomoda também o tom marqueteiro do museu. Quem quiser pode ao final da visita, enviar um video para a família comentando. A idéia é ótima para o Van Gogh, o Louvre, mas estúpida para um museu que trata de um dos momentos mais terríveis e dolorosos da história da humanidade.

Há claro um tom informativo, que vale a pena conhecer: os vídeos com entrevistas a Otto Frank e outras pessoas que conviveram com Anne; as cartas e fotos da época, etc. O museu seria excelente se eles controlassem o número de visitantes.

Antes de visitar o museu, vale a pena conferir os filmes sobre a guerra produzidos na Holanda, como já comentei aqui.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010 0 comments

Resposta confusa a um amigo (Ou sobre a Amazônia)

Se você quer uma viagem super-tranquila, com belas paisagens e um bom hotel, é caríssimo mesmo.

Hotéis no centro de Manaus não são caros, mas o máximo que você pode fazer é ir para o encontro das águas (viagem curtinha, mas que as agências de turismo fazem um pacote de um dia).

Melhor ir para as cidades do interior. Minhas amigas amazonenses recomendam "Alter do Chão". Há também uma festa importante em junho em Parintins (Festa do Boi).

Eu sempre vou para São Gabriel da Cachoeira. Cidade lindíssima! onde está o Pico da Neblina. O Marcelo (guia) faz 10 dias de passeio para o Pico da Neblina com carregadores, visita aos Yanomamis, hotel na cidade (1 noite) e tal por R$2.500 por pessoa (mas precisa de um grupo de 6). São Gabriel também tem outras opções: os lagos coloridos, a praia, a ilha do Sol, a ilha da Juísa. O problema, entretanto, é chegar lá (consulte preços na TRIP).
domingo, 10 de janeiro de 2010 0 comments

Foz do Içana


Já ouviu falar do Rio Içana?

Ele nasce na Colômbia, cruza a fronteira e desce cortando a floresta até desaguar no Rio Negro. Na Colômbia, o Isana é habitado pelos Kuripako. No Brasil, o Içana é território Baniwa. No baixo Içana, substituiu-se a língua Baniwa pelo Nheengatu, mas ainda se mantém muitas tradições.

Eu cheguei a presenciar Dabukuri em Assunção e também se ouve muitas histórias sobre Nhãpirikuli por aquelas bandas... O ritual de iniciação dos adolescentes - Kariamã -, entretanto, não é mais realizado, pois desde da chegada de Sofia Muller (missionária evangélica), não se vê com bons olhos a atuação dos pajés. E se não tem pajé, não tem Kariamã, e assim os jovens perdem a oportunidade de ouvir os conselhos dos antigos e se prepararem para a vida adulta.

Quer saber mais? Entra no blog do André Baniwa.
domingo, 27 de setembro de 2009 0 comments

Domingo de turista em São Gabriel

Saímos da Casa dos Professores às oito e meia da manhã e subimos ao centro da cidade para o Café da manhã regional:

tapioquinha com queijo coalho e tucumã;
X-caboclinho (pão, queijo coalho, tucumã e banana frita);
bolo de milho;
bolo de macaxera;
suco de cupuaçu, taperebá, e tudo mais que a floresta proporcina :)

Logo depois, subimos o Morro da Boa Esperança... Cada estaçâo, milhares de fotos... A máquina fotográfica substituiu as orações. Fotografar também é uma forma de agradecer pelo esplendor da paisagem.

O almoço foi no CIMARNE, o clube do exército que abre aos domingos para os baderneiros civis.

E cá estou eu, bem turista na internet!
sexta-feira, 25 de setembro de 2009 0 comments

Para de reclamar e pensa!

Em Nheengatu, em Baniwa, em Tukano e em Portugues, um grupo de jovens adultos (alguns bem mais velhos que isso) prometeram levar o ensino às escolas públicas de Sao Gabriel da Cachoeira.

Eram os formandos do Normal Superior da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

Em apenas oito anos, a UEA é hoje responsável por 25% do ensino superior do estado do Amazonas.

Problemas? Milhoes!!! É preciso investir pesado na formaçao dos professores, em pesquisas que possam melhorar a vida de toda populaçao...

Em seus primeiros passos, a universidade traz esperança de uma nova Amazonia feita de homens e livros.
terça-feira, 15 de setembro de 2009 0 comments

Apartheid à brasileira

Ontem um bicheiro me explicou a sociedade gabrielense:

A alta, a baixa e o povo daqui.

A alta é formada pelos comerciantes.

A baixa, pelos funcionários do governo e do comércio.

E o povo daqui são os povos indígenas...
domingo, 2 de agosto de 2009 1 comments

Cara-pau animado



Vamos voltar no tempo, para março deste ano, quando eu e uma amiga resolvemos viajar por Portugal.

Nós: - O que tem de bom para comer aqui em Faro?

Cabelereira portuguesa: - Pão com carne de leitão e queijo...

Nós: - Humm... mas não tem nada assim tradicional, tipo peixe...

Cabelereira, depois de refletir um bocado: - Cara-pau alimado

Fomos, então, em busca do cara-pau:

eu - Tem cara-pau animado?

amiga - alimado?

garçon - não, não está na época...

Vários restaurantes, a mesma cena... Quando estávamos desistindo vimos uma placa: "Promoção: Cara-pau alimado"

Nós: HEHEHEHE!!!!!!!! Queremos cara-pau
Eu: animado
Amiga: Alimado

Heis que aparece aquele treco gelado com umas batatas sem graça...

Nós: Dá pra esquentar?

Garçonete olha estranho e sai. Minutos depois volta com o peixe em temperatura ambiente. Era pra comer frio...

Hehehe... era melhor ficar com o leitão...
sexta-feira, 31 de julho de 2009 0 comments

A viagem do elefante


Imagine que no século XVI, o "quintal" da torre de Belém era habitada por alguém muito especial: o elefante Salomão e seu conarca Suhro (ou Solimão e Fritz, como foram conhecidos na Áustria). Para se livrar dos gastos com tamanho animal, o rei de Portugal decidiu dar de presente o elefante para o arqueduque da Áustria.


A viagem do elefante é apenas um pretexto para que Saramago crie um mundo cheio de personagens - reais e imaginários. O título e a capa infantis escondem com ironia as críticas à sociedade portuguesa - da época? ou de hoje? A viagem em si é uma grande gargalhada à hipocrisia dos governantes, capazes de receberem 'elefantes' como presentes :)


O elefante não vai sozinho, claro! Leva consigo Suhro, o conarca indiano "convertido" católico. Nas paradas para descanso, as conversas de Suhro com os colegas, com o arqueduque, com os padres e todos, mostra que o "bárbaro" estava bem longe de endender um mundo muito mais místico que o da Índia... Um mundo em que brincadeiras de elefante viram milagre...
 
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