Eu sou uma mistura confusa das várias narrativas que se introjetaram em minha alma por meio de leituras, de caminhar pelo mundo com o ouvido atento para desabafos de tantas mulheres guerreiras que confiaram sua história a mim; e das narrativas que eu mesma escrevi em minhas andanças pelas Américas e pela Europa.
Tânia Rezende, professora da UFG, tem uma maneira muito gostosa (e didática) de tratar de assuntos sérios. Como uma fantástica professora, ela ensina por meio do diálogo e da provação. Admiradora que sou da Tânia, não poderia deixar de compartilhar esse texto sobre as cotas:
Em mais uma, das muitas em mais de um ano (o acompanhamento é de 3 em 3 meses) consulta ao neurologista...
Já é lugar-comum, depois dos lugares-comuns de todo médico: Neuro: você faz o quê? Eu: sou professora. Neuro: de quê? Eu: de Portuguêis... Neuro: Onde? Eu: na UFG. Neuro: (rindo) agora, vou te perguntar uma coisa e você vai ficar brava... Eu: (rindo, pensando com meus botões: lá vem encheção de saco com Enem, estava perto da publicação do resultado). Neuro: ...o que você acha do Enem? Não,,, Seja sincera... Eu: ah...?! ar... Neuro: ...é injusto, o Enem é muito injusto, você não acha? Você não acha que depois do Enem as pessoas estão falando muito mais errado? Tá todo mundo falando muito errado, você acha, me diz, você não acha? Eu: (eu poderia fazer um patrulhamento na fala dele para exemplificar como, de fato, está todo mundo falando errado, mas preferi responder diferente) desculpa, eu discordo do senhor, as pessoas não estão falando nem mais nem menos errado que antes; o que ocorre é que as pessoas que falam diferente do padrão normatizador do bem falar do português agora estão mais visíveis e isso tem a ver com ações afirmativas e não com Enem.
Texto de Tania Ferreira Rezende, compartilhado no Facebook.
Eu não sei se é. Tem uma frase do Autran Dourado que diz assim com relação à gramática: “É preciso aprender a gramática, para depois esquecê-la”. Vamos colocar isso de outro jeito: para você refinar a sua expressão escrita é importante desenvolver consciência sobre como a língua é e como ela funciona estruturalmente. Vamos pensar sobre a organização sintática como parte do processo. Então, quando eu estou lendo um texto, de repente parar num determinado momento, destacar e analisar um segmento e perceber que o autor usou orações coordenadas, que ele poderia ter usado subordinadas. É importante ter essa consciência, assim como ter consciência do funcionamento social da língua, de que você varia a língua conforme o contexto em que você está, conforme o gênero. Quer dizer, escrever um conto é diferente de escrever um poema; fazer um sermão é diferente de narrar um jogo de futebol. Há um processo todo que nós fazemos na adequação da linguagem. As duas coisas são importantes: língua na dinâmica interacional, social, e a estrutura da língua. A possibilidade de você rastrear no vocabulário palavras mais precisas para aquilo que você quer dizer, essa reflexão é fundamental. Agora, qual é o problema da gramática? A gramática é ensinada escolasticamente: você dá o conceito, o exemplo, e faz exercício. Isso não faz sentido para quem está se aproximando da língua e precisa compreender como ela funciona.
Carlos Alberto Faraco, em entrevista publicada aqui
Lembra que falamos de William Stokoe AQUI? Nada melhor do que contar a história do "cara" em ASL, não é? rsrsrsr Mmmmm... como nem todo mundo vai conseguir entender, esbocei aqui uma legenda - assim, meus queridos alunos, podem ter uma ideia do que se conta no filme:
0,0:00:07.00 -
0 :00:09.00, - Você
sabia
0,0:00:09.00
- 0 :00:11.00,
- que antes de meados de 1950
0,0:00:13.00
- 0 :00:15.00,
- A língua de sinais americana
(ASL) foi
0,0:00:15.00
- 0 :00:17.00,
- vista como um Inglês
"quebrado"
0,0:00:17.00
- 0 :00:21.00,
- e não era reconhecida
0,0:00:23.00
- 0 :00:25.00,
- como uma língua verdadeira
0,0:00:25.00
- 0 :00:27.00,
- Como parte do Mês da História
do Surdo
0,0:00:27.00
- 0 :00:29.00,
- nóss queremos lembrar e honrar
0,0:00:31.00
- 0 :00:33.00,
- William "Bill"C.
Stokoe, Jr.,
0,0:00:37.00
- 0 :00:39.00,
- o linguista é conhecido por
0,0:00:39.00
- 0 :00:41.00,
- mostrar que a ASL é uma língua
de verdade
0,0:00:41.00
- 0 :00:43.00,
- similar a línguas orais
0,0:00:43.00
- 0 :00:47.00,
- com sentidos próprios
0,0:00:47.00
- 0 :00:49.00,
- com estrutura e sintaxe própria
0,0:00:49.00
- 0 :00:53.00,
- É por isso que nós o admiramos.
0,0:00:53.00
- 0 :00:55.00,
- pelo o que ele fez
0,0:00:57.00
- 0 :00:59.00,
- A pesquisa de Stokoe foi
revolucionária
0,0:01:01.00
- 0 :01:03.00,
- muitos linguistas pensavam que
a ASL
0,0:01:03.00
- 0 :01:05.00,
- era uma língua primitiva
0,0:01:05.00
- 0 :01:07.00, - que
imitava a língua oral
0,0:01:07.00
- 0 :01:09.00,
-
0,0:01:09.00
- 0 :01:11.00,
- O uso da ASL foi proibido
0,0:01:11.00
- 0 :01:15.00,
- em muitos cenários educacionais
0,0:01:17.00
- 0 :01:19.00,
- Frequentemente, as pessoas
surdas eram punidas por
0,0:01:19.00
- 0 :01:21.00,
- usarem ASL nas escolas de
surdos
0,0:01:21.00
- 0 :01:23.00,
- assim como na Universidade de
Gallaudet
0,0:01:23.00
- 0 :01:25.00,
- Entretanto, quando os
estudantes estavam
0,0:01:25.00
- 0 :01:29.00,
- juntos em seus dormitórios
0,0:01:31.00
- 0 :01:33.00,
- e em outros lugares, eles
sinalizavam
0,0:01:35.00
- 0 :01:37.00,
- o que ajudava a preservar a
língua
0,0:01:37.00
- 0 :01:39.00,
- Quando Stokoe chegou em
Gallaudet
0,0:01:39.00
- 0 :01:41.00,
- ele sabia pouco
0,0:01:41.00
- 0 :01:45.00,
- sobre a surdez e sobre a língua
de sinais
0,0:01:45.00
- 0 :01:47.00,
- Ele tinha sido contratado
0,0:01:47.00
- 0 :01:49.00,
- para ensinar inglês
0,0:01:49.00
- 0 :01:51.00,
- Como os outros professores de
Gallaudet,
"é uma prova, na história de Goiás, que a opressão social pode ser combatida com a força do imaginário. Nenhuma arma é capaz de destruir um sonho libertador"
(Marcio V. Nunes, diretor do documentário Santa Dica, abril de 2005)
Em julho conheci Lagolândia, a terra da Santa Dica, uma mulher de pulso forte que teria comandado legiões, instituído o sistema de uso comum do solo e abolido o uso do dinheiro. Uma versão feminina (e feminista!) de Canudos em meio a Goiás. (Veja aqui a história).
O trabalho duro, mas poético, do cotidiano de Lagolândia.
Com as amigas, na casa de Santa Dica.
Esse espírito de luta, essa consciência de que a opressão social deve ser combatida com ternura, deve ter inspirado a formação da Licenciatura em Educação Intercultural, na qual tenho o prazer de participar.
Profa. Miracema Krikati, formada na Licenciatura Intercultural da UFG, atua como professora convidada para turma de 2011. Com a participação da pequena Mirella.
"Outro problema maior que estamos enfrentando hoje é a entrada na nossa área dos não-indios que são os madereiros. Eu acho que lá na aldeia eles não vêem isso ou fingem que não vêem. O meu padrasto, ele era só um professor, mas ele enfrentava eles. Ele entrava na nossa área para verificar se eles não estão roubando madeira, mas infelizmente ele se foi em 24 de janeiro de 2013.
Por isso que quero ser igual a ele, ser professora, mas também enfrentar, esses problemas que hoje ninguém está enfrentando. Então ser professor não é só ensinar a ler e escrever. É ensinar o aluno a saber confrontar a realidade de opressão de nós povos indígenas. Ser professor é isso, é saber dialogar, fazer refletir os problemas"
Edimara Gavião, após discussão sobre Paulo Freire em aula de Inglês Intercultural.
Na próxima semana, começa o meu quarto semestre de UFG. Desta vez, fui convidada para um super desafio: ministrar "Fonética e Fonologia" e "Sintaxe" no curso de Letras, com habilitação em Língua Brasileira de Sinais. A ideia é apresentar Fonologia e Sintaxe a partir de uma perspectiva tipológica, de modo a trazer um suporte teórico para que os alunos reflitam sobre a estrutura das línguas naturais, orais ou sinalizadas. Estou ansiosa para esse novo desafio!!!
Para entrar no clima, vamos a um filme lindo sobre o primeiro amor entre um garoto ouvinte e uma garota surda.
A legenda é de Quintino Martins de Oliveira, intérprete da UFG.
Uma das coisas mais gostosas da escola é fazer amigos, conversar, falar baixinho enquanto o professor explica a lição. Quem nunca fez isso que atire a primeira pedra! E até na aula de inglês ou de francês ou de alemão, é sempre tão gostoso cochichar em português... (não consigo imaginar um aluno cochichando em outra língua). É na língua materna em que trocamos confidências, brincamos sobre o professor (quem nunca fez isso?)...
Mas em uma escola do Mato Grosso do Sul, alunos foram proibidos de cochichar em suas línguas maternas. Mais que isso, alunos que não sabiam ler tiveram de assinar um termo de compromisso de que não falariam suas próprias línguas na escola... Veja a reportagem no Terra.
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Em tempo, a Folha também registrou o ocorrido com um pouco mais de apuração (e muitos comentários!). Veja aqui.
Feche os olhos, tente voltar no tempo, para o tempo em que você era uma criancinha com seis ou sete anos. Primeira aula na escola e a professora começa a falar:
- Jetzt gehen wir lernen duits zu schreiben...
Putz!!! Ela está falando Alemão (naquela época, você provavelmente não conseguiria nem chegar a essa conclusão). E agora? Depois de chorar à beça, você ia acabar descobrindo que o melhor é ficar quietinho e fingir que está entendendo - cara de paisagem é sempre uma boa estratégia.
Se Alemão é difícil para nós. Português é difícil para as crianças alemãs nas escolas de comunidades pequeninhas no Rio Grande Sul. Clarice Lispector, falante nativa de íidiche, deve ter aprendido muito sobre o silêncio na experiência da escola monolíngue em Português para crianças que não falavam Português.
Durante a segunda guerra, Getúlio Vargas decidiu proibir as línguas estrangeiras no Brasil, especialmente Alemão, Italiano e Japonês - justamente três dos povos que formam boa parte da sociedade brasileira do sul do país. Proibir na ditadura getulista significava prender quem desobedecia, torturar etc.
Não era a primeira vez que um decreto proibia a diversidade linguística do território brasileiro. Já em 1757, Pombal proibiu que as pessoas falassem a língua geral no território de Maranhão e Grão Pará. De ditadura em ditadura, chegamos à proibição das línguas dos imigrantes.Só em 1988, começamos a mudar esse quadro - os povos indígenas passaram a ter o direito constitucional de ensinar em suas próprias línguas. Os povos estrangeiros, no entanto, continuam silenciados pela lei do monolinguismo.
O vídeo fala de política linguística no sul do Brasil e menciona o documentário Walachai de Rejane Zilles (Brasil, 2009). Estou morrendo de vontade de ver, mas acho que vou levar um tempinho para ter acesso. Vai a dica para quem está no Brasil (a Biblioteca da ECA-USP costuma ter esses filmes):
"SAbe, não sei se vem ao caso mas gostaria de contar uma histórinha que vivenciei com o meu filho....quando ele era pequeno, uns 6-7 anos, ele atravessou uma porta de vidro. Entrei em pânico pois era sangue pra todo lado. Minha primeira reação foi pegá-lo no colo,imediatamente colocá-lo no carro e levá-lo para o hospital. Felizmente era mais sangue que machucados mas mesmo assim levou um bom tanto de pontos....mas, enquanto segurava sua mão, enquanto o médico e as enfermeiras o limpavam, iniciei um bombardeio de perguntas...querido, tudo bem?? Aonde dói?? Vc tá sentindo alguma coisa esquisita?? E, por aí vai....e de repente, ele, deitadinho ali, naquela maca, vira e me fala...mãe eu não sei falar!!!! Naquela pequena frase, tive um clique....não é que ele não sabia falar, ele simplesmente não possui as palavras que eu queria ouvir...ele não tinha palavras para me explicar...acredito que no pequeno mundo dele, dentro do seu pequeno conhecimento, ele não sabia me responder o que eu queria ouvir...pois na verdade eu gostaria que ele me dissesse... minha costela não dói....minha barriga tá tudo bem....estou enxergando normalmente....não sinto dor alguma no coração e por aí vai...meu mundo adulto, cobrava dele palavras,informaçoes que ele, naquela idade e naquele estado não sabia responder....depois disto, depois deste despertar....sempre me pego imaginando como é difícil para uma pessoa ser privada do conhecimento....como é injusto.....uma pessoa que não tem acesso à informação por não saber ler e escrever ou simplesmente não ter acesso por não ter uma bagagem que lhe permita entender o que acontece....é muito triste. Privar alguem do conhecimento, na interpretação de um texto, da leitura de um livro, jornal, revista, blog...seja lá o que for.... até de um outdoor....é simplesmente um crime.
Agora, por outro lado, sempre desconfio daquele que usa seus títulos para pautar algum debate......se precisa usar de tal expediente, provavelmente não sabe nada."
O deputado Aldo Rebelo se diz um grande defensor da "língua da pátria" - ironicamente, mais conhecida como língua portuguesa (os linguistas preferem falar em Português Brasileiro, mas isso é outra história). Para defendê-la, criou o projeto de lei 1676/99, que declarava lesivo ao patrimônio cultural brasileiro "todo e qualquer uso de palavra ou expressão em língua estrangeira" (art. 4º). Ao formular o projeto de lei, ignorou as manifestações dos linguistas, representados pela ABRALIN e pela ALAB, e da própria Academia Brasileira de Letras. Não entendeu o deputado que o domínio pleno de uma língua está na capacidade de expressão e compreensão nos seus registros orais e escritos e que os estrangeirismos são apenas vestígios dos contatos entre povos: almofada (Árabe), chocolate (Nahuatl, ou talvez de algum idioma Maia), igarapé (Tupinambá), sutiã (Francês), futebol (Inglês), etc.
O uso de textos, escritos ou falados, para expressar conhecimentos parece ser algo que Aldo ignora completamente. Aziz Ab’Saber enviou ao comitê do tal código florestal um dossiê explicando os tipos de ambiente do Brasil e a necessidade de preservá-los. Anos de pesquisa séria e comprometida com o meio ambiente, completamente ignoradas - para não dizer que devem ter parado na lata do lixo. Muitos outros pesquisadores batem na mesma tecla (uma pequena amostra pode ser encontrada aqui). Comunista de fachada, o deputado tende a se defender dizendo que se trata de criar mais espaços para produção de alimentos - Manuela Carneiro da Cunha o desmente: "Quem está limitando o acesso às terras a 'quem quer produzir' não são [...] os índios, os quilombolas, as unidades de conservação e a pequena propriedade rural, e sim a parte tecnologicamente mais atrasada e predatória da pecuária [que consegue a façanha de ter menos de um boi por hectare]" (confira aqui).
Aldo deveria saber que preservar uma língua não é uma guerra boba contra estrangeirismos. Trata-se de um conceito muito mais abrangente (e abstrato) de dar condições de vida e soberania aos falantes (coisa que o tal código desconhece); respeitar, divulgar e incentivar o conhecimento produzido na língua (e não ignorar seus cientistas); investir em educação de qualidade, e tudo mais que costumam chamar de "utopias".
Os habitantes de Thurdorf no norte da Suiça e Nova Vida no Rio Negro (norte do Brasil) com certeza nunca ouviram falar um dos outros. Os suiços têm uma noção tão vaga de Amazônia, quanto os barés têm uma noção vaga de Europa. Exceto, talvez, pelos jovens que sonham em conhecer o mundo oposto.
Oposto? Em uma viagem curtinha, descobri mais semelhanças do que poderia supor a princípio.
A escola é o ponto de maior semelhança. Os professores de Thurdorf e os de Nova Vida têm como desafio ensinar crianças de várias idades na mesma sala - o chamado 'ensino multiseriado'. Em aldeias, o número de alunos é muito pequeno para que os governos suiço e brasileiro disponibilizem um professor para cada série - a solução nos dois países foi juntar em uma mesma sala crianças de séries diferentes. Para os governos é uma economia e tanto; para os professores, um desafio de criatividade e competência.
Os mesmos professores também têm de lidar com o bilinguismo. Na Suiça, as crianças aprendem em casa um dos dialetos de "suiço alemão", que varia de "cantão" (ou estado) para "cantão". Não há, no entanto, material didático para ensinar em "suiço alemão". Além disso, todo suiço deve aprender também o "alemão padrão". Em Nova Vida, como em todas as aldeias indígenas, o desafio é alfabetizar na língua materna (apesar da ausência de material didático) e ao mesmo tempo introduzir o Português (para o qual há material didático, mas que trata de uma realidade completamente alheia ao universo indígena).
Para lidar com o mundo em que vivem, os professores de Thurdorf e de Nova Vida incentivam atividades na floresta. Sim, em Thurdorf há ainda um pedaço da floresta negra. Os alunos devem conhecer os tipos de plantas, os instrumentos utilizados no trabalho agrícola tradicional, etc. Em Nova Vida, esse tipo de ensino está começando, chama-se de "escola indígena diferenciada". Os professores incentivam a pesquisa com os idosos sobre os tipos e usos das plantas da região, as atividades artesanais tradicionais, etc. Nas duas "aldeias", os professores estão aprendendo a ensinar para preparar o cidadão para viver bem na comunidade em que vivem - e só depois, consciente de sua identidade linguistico-cultural, conhecer outros mundos.
Alunos da comunidade de Nova Vida, preparando festa.
Thurdorf vista de uma torre no meio da floresta negra.
Os Werekena, povo Arúak, usam apenas um grande tronco de madeira para construir o "bongo" - uma canoa gigantesca que serve para a comunidade de Anamuim no Alto Rio Xié levar seus produtos até São Gabriel da Cachoeira. Uma viagem impressionante tanto pela beleza natural quanto por permitir que os Werekena de cada parte do rio troquem mensagens, discutam política, revejam os parentes, etc.
Em 2006, os professores da Escola Indígena Diferenciada de Anamuim propuseram aos seus alunos de ensino fundamental que acompanhassem os mais velhos na construção de um bongo comunitário. Os professores aproveitam o tema para explicar aos alunos conceitos de medida, aerodinâmica, etc. O livro mostra também como todos os membros da comunidade e parentes de comunidades vizinhas se juntam para construir o bongo.
O resultado da pesquisa desses jovens indígenas transformou-se em um livro ilustrado, em que são descritas detalhadamente todas as etapas da construção: a escolha da árvore, o corte, a tarefa de esculpir a canoa na madeira, a queima, até a festa da primeira viagem.
Quando estive em Anamuim, trabalhei com os professores na edição do manuscrito para a forma digital. A pedido dos próprios autores, fizemos uma tradução para o Português (que fica no finalzinho do livro para não atrapalhar a leitura dos falantes de Nheengatú). No ano passado, levei uma cópia impressa para uma outra comunidade bem longe - a idéia era verificar se a escrita dos Werekena podia ser compreendida pelos Baré em Boa Vista. O resultado foi positivo.
Agora vem o mais difícil, conseguir verba para publicar. O projeto está com a FOIRN e também com a Secretaria de Educação do Município. E quem sabe alguém se interesse por publicar.
Referências Cordeiro, Florêncio e outros. Maye yamunhã bungu - A construção do bongo. Texto e ilustrações produzidos pelos alunos da Escola Indígena Diferenciada de Anamuim, São Gabriel da Cachoeira. A ser publicada quando obtivermos ajuda.
"Cursistas" de Magistério Indígena para falantes de Nheengatú, comunidade de Assunção do Içana, outubro/2007.
Em São Gabriel, estão organizando mais uma etapa do Magistério Indígena. Trata-se de uma iniciativa da prefeitura e do governo do estado do Amazonas para dar uma formação, equivalente ao ensino médio, para que jovens indígenas sintam-se preparados para educar.
Uma educação diferenciada em que se pretende formar cidadãos para viver bem em suas próprias comunidades. Por isso, se vê como essencial o ensino por meio de pesquisa - a descoberta dos mitos com os antigos; as técnicas tradicionais de cultivo; a matemática por trás das formas das coméias, da fabricação de canoas; o funcionamento do rádio comunitário; a medicina tradicional; formas de desenvolvimento sustentável, entre outros tantos temas, escolhidos de acordo com as necessidades de cada grupo.
Também estão preocupados com as melhores formas de alfabetizar em língua materna - um desafio comum a todos os povos indígenas. (Não se engane: O fato de professores de Português ou Inglês terem uma quantidade absurda de materiais didáticos, não torna a tarefa do educador mais simples - talvez até atrapalhe).
A seu favor, esses jovens professores tem o apoio de suas comunidades. Engraçado como as pessoas mais simples, muitas vezes analfabetas, acreditam na importância da educação - muito mais do que nós que a temos. Basta ver a eleição. No Rio Negro, o discurso da educação sempre elege prefeito (mesmo que nem sempre as promessas sejam cumpridas). Em São Paulo, terra de tanta "gente estudada", Maluf foi eleito tantas vezes, apesar do "professorinhas mal casadas"; Mário Covas é mitológico, apesar da ovada de professores mal-remunerados... Só para lembrar os casos mais marcantes.
E nas próximas eleições: Que valor daremos à educação?
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