terça-feira, 29 de junho de 2010 0 comments

Encontro


"O antigo nome do Rio Negro era Quiari. Na parte superior conserva o de Uéneyá. Entre no Amazonas na latitude austral de três gráos e nove minutos, sendo o seu maior tributario. [...] Hé espetáculo admiravel o seu encontro com o Amazonas, lutando ambos como em porfia para fazerem predominar a côr das suas aguas: mas fica o Amazonas vencedor, arrojando valente o negro para a margem oposta, o qual imperceptivelmente se vai misturando com o Amazonas, até que em breve espaço se faz dominante a côr esbranquiçada das aguas deste". Francisco de Sampaio, em viagem realizada entre 1774 e 1775 (citado por Guzman,p.22)
sábado, 26 de junho de 2010 0 comments

Desafio do lixo


Amsterdam, maio de 2010, quando começaram a limpar a cidade após a greve dos lixeiros (30/04 até meados de maio)


Onde vamos pôr
as caixas de isopor
onde diabos vamos pôr
as nossas caixas de isopor

como nos livrar
das plásticas palavras
ditas á mesa do bar
palavras que vão dar no mar

poluir é ir juntando o que resta de nós
após as refeições
nossos retos mortais

venenosas ilusões
milhões de garrafas vazias
cheias de alergias e aflições

onde vamos pôr
as caixas de isopor
a vida de mentira
a ira, do desamor

temos que encontrar o lugar
no deserto aberto
em nossos corações

Gilberto Gil.
http://www.gilbertogil.com.br/sec_musica.php?page=2
© Gege Edições Musicais ltda (Brasil e América do Sul) / Preta Music (outros países)
quinta-feira, 24 de junho de 2010 1 comments

Quantas Alagoas?

"Olhemos para este Haiti e para os outros mil Haitis que existem no mundo, não só para aqueles que praticamente estão sentados em cima de instáveis falhas tectónicas para as quais não se vê solução possível, mas também para os que vivem no fio da navalha da fome, da falta de assistência sanitária, da ausência de uma instrução pública satisfatória, onde os factores propícios ao desenvolvimento são praticamente nulos e os conflitos armados, as guerras entre etnias separadas por diferenças religiosas ou por rancores históricos cuja origem acabou por se perder da memória em muitos casos, mas que os interesses de agora se obstinam em alimentar", escreve Saramago em um dos seus últimos textos no blog.
Não só escreveu sobre, como também enviou para o Haiti uma jangada de pedra. Diferente do que fizeram os haitianos ricos, que abençoados por Deus, foram os menos afetados pela tragédia.

Os coronéis alagoanos também não devem ter sido muito afetados pelas águas dos rios Mundaú e Paraíba. E é fácil prever que não vão contribuir em nada para ajudar os desabrigados da enchente no estado. Ou talvez, eu esteja enganada - sempre há um coronel disposto a contribuir em troca de votos nas próximas eleições ou de uma rapariga formosa para ajudar nos afazeres domésticos.

Saramago não vai para o céu, dá a entender o jornal do Vaticano. Para o céu, só vão os mais ricos haitianos, os devotos coréneis nordestinos, os padres pedófilos, e, claro, Vossa Santidade o Papa Bento XVI.
terça-feira, 22 de junho de 2010 3 comments

Esperança imortal?



Desapontada com a comemoração ao gol à moda de Maradona que o jogador Luís Fabiano "fez" ontem contra a Costa do Marfim - logo a Costa do Marfim, que estava jogando pertinho de casa pela primeira vez na história. Com raras exceções, como esta aqui, a imprensa brasileira foi conivente.

Mais desapontada ainda de saber que Maluf é candidato a vice-govenador do Rio Grande do Sul.

Difícil acreditar na esperança imortal de Ana Carolina, citando Eliza Lucinda.
domingo, 6 de junho de 2010 5 comments

Duas aldeias

Os habitantes de Thurdorf no norte da Suiça e Nova Vida no Rio Negro (norte do Brasil) com certeza nunca ouviram falar um dos outros. Os suiços têm uma noção tão vaga de Amazônia, quanto os barés têm uma noção vaga de Europa. Exceto, talvez, pelos jovens que sonham em conhecer o mundo oposto.

Oposto? Em uma viagem curtinha, descobri mais semelhanças do que poderia supor a princípio.

A escola é o ponto de maior semelhança. Os professores de Thurdorf e os de Nova Vida têm como desafio ensinar crianças de várias idades na mesma sala - o chamado 'ensino multiseriado'. Em aldeias, o número de alunos é muito pequeno para que os governos suiço e brasileiro disponibilizem um professor para cada série - a solução nos dois países foi juntar em uma mesma sala crianças de séries diferentes. Para os governos é uma economia e tanto; para os professores, um desafio de criatividade e competência.

Os mesmos professores também têm de lidar com o bilinguismo. Na Suiça, as crianças aprendem em casa um dos dialetos de "suiço alemão", que varia de "cantão" (ou estado) para "cantão". Não há, no entanto, material didático para ensinar em "suiço alemão". Além disso, todo suiço deve aprender também o "alemão padrão". Em Nova Vida, como em todas as aldeias indígenas, o desafio é alfabetizar na língua materna (apesar da ausência de material didático) e ao mesmo tempo introduzir o Português (para o qual há material didático, mas que trata de uma realidade completamente alheia ao universo indígena).

Para lidar com o mundo em que vivem, os professores de Thurdorf e de Nova Vida incentivam atividades na floresta. Sim, em Thurdorf há ainda um pedaço da floresta negra. Os alunos devem conhecer os tipos de plantas, os instrumentos utilizados no trabalho agrícola tradicional, etc. Em Nova Vida, esse tipo de ensino está começando, chama-se de "escola indígena diferenciada". Os professores incentivam a pesquisa com os idosos sobre os tipos e usos das plantas da região, as atividades artesanais tradicionais, etc. Nas duas "aldeias", os professores estão aprendendo a ensinar para preparar o cidadão para viver bem na comunidade em que vivem - e só depois, consciente de sua identidade linguistico-cultural, conhecer outros mundos.



Alunos da comunidade de Nova Vida, preparando festa.


Thurdorf vista de uma torre no meio da floresta negra.
 
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